quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Hamlet ou Amleto?


Tudo que vejo nele é uma imensidão onde meu olhar se perde em deslumbramentos.
Gustave Flaubert
(a respeito de Shakespeare)

O primeiro Shakespeare a gente nunca esquece. Na minha primeira vez, eu já estava familiarizada com Romeu e Julieta e tinha escutado falar muito do seu Júlio César. Mas o velho Bill mesmo, de verdade, foi num Hamlet que dava mole lá em casa. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, vejam vocês.

O legal de ler Shakespeare é que a gente nem sabe o quanto já sabe de sua obra até com ela se defrontar. Pois foi o que se deu comigo. Estava com 12 anos quando abri o Hamlet. De cara, surpreendeu-me o formato do texto teatral. A organização das falas, o valor das rubricas, tudo era novo. O vocabulário impressionava mais que tudo. Como se não bastassem as palavras desconhecidas, havia, ainda, as traduções de palavras inventadas pelo bardo inglês. Como entender aquilo? O recurso às notas de rodapé impunha constantes interrupções, e eu não sabia como fazer para manter o ritmo da leitura do texto buscando, sempre que necessário (e era sempre necessário) esclarecer dúvidas.

De lá para cá, tenho pensado muito nessa conciliação. É fundamental que o leitor seja enfeitiçado pelo texto, que não deseje abandoná-lo; ao mesmo tempo, ele precisa informar-se sobre o contexto em que foi escrito, entender do que se fala para conseguir construir a imagem mental do que lê. O prazer da leitura supõe compreensão, mas o esforço pelo entendimento leva à suspensão da leitura.

Hamlet ou Amleto?, de Rodrigo Lacerda, também não soluciona o problema. É livro para ser lido por quem já conhece o texto, já teve sua curiosidade aguçada e deseja aprofundar-se nos seus sentidos. O tom bem-humorado, parece-me, é o ganho da obra.

Lacerda coloca o/a leitor/leitora como ator/atriz a quem cabe representar o papel do príncipe da Dinamarca. Já na abertura, explica o tamanho dessa responsabilidade. A partir daí, ele o/a leva pela mão, através de atos e cenas, não apenas tirando possíveis dúvidas sobre o vocabulário, mas também contextualizando a trama, sempre com muito humor. Para explicar como é o personagem central, ele começa por dizer:

Você foi educado a vida inteira para reinar. Conhece desde o berço as mais sofisticadas etiquetas, as grandes obras de arte antigas e modernas, os manuais para o sucesso na vida pública, as ciências mais avançadas – geografia, astronomia, astrologia, alquimia, filosofia, física, química e matemática – e a história dos grandes impérios. É o perfeito exemplo do príncipe renascentista. Está finalizando sua esmeradíssima educação na Alemanha, mais especificamente em Wittenberg, onde uma universidade famosa, fundada em 1502, tem como mestres os grandes pensadores do  seu tempo. Não faça caso do fato de a universidade só ter sido fundada aproximadamente quatrocentos anos depois da data em que a história se passa. É um anacronismo desimportante, entre outros.

Sempre com o intuito de situar o leitor, o autor condensa o que os críticos dizem sobre as intenções dos personagens e os significados de suas ações e dá, inclusive, as possíveis linhas de interpretação para cada um deles. O rei Cláudio amava realmente a mulher de seu irmão ou apenas a usava para chegar ao poder? Ela, a rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, era tão falsa e cruel quanto Cláudio ou apenas uma mulher oprimida, que se habituou a seguir as orientações dos homens? Qualquer que seja a posição adotada, haverá um modo de indicar, mesmo que de forma velada, o que pensa e sente cada personagem.

As inúmeras perguntas que o texto de Shakespeare nos coloca não necessariamente terão respostas, nem Rodrigo Lacerda parece ter esse objetivo. Antes, ao prover-nos a nós, leitores e leitoras, de informação, proporciona-nos o prazer de redescobrir na tragédia do príncipe dinamarquês as grandes, eternas questões da humanidade.


LACERDA, Rodrigo. Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Narrativas por trás da narrativa I




O autor em seu livro deve ser como Deus em seu universo:
presente em toda parte e visível em nenhuma.
Gustave Flaubert

Foi na adolescência que adquiri o perigoso hábito. Houve um período em que o cinema mais próximo oferecia uma programação de dois ou três filmes “de arte” (como os chamávamos à época) do mesmo diretor. No início, eu ia com colegas de escola, jovens cinéfilos como eu. Aos poucos, porém, a necessidade aumentou e eu não podia esperar pelos outros. Dois ou três filmes (seguidos) de Bergman! Ou de Buñuel, ou de Godard... Entre as duas doses, algo para acelerar o efeito: algumas páginas de um livro.

De lá para cá, a associação literatura-cinema só ganhou força na minha cabeça. Diferentemente de outras pessoas que não suportam assistir a adaptações de romances para a tela (algumas são mesmo horríveis...), eu não resisto a “casar” as duas histórias. O modo mais frequente é, antes de ir ao cinema, começar a reler a obra. Quando já estou no clima, interrompo a leitura e vou ao cinema. Retomo o livro no mesmo dia, às vezes.

Vivo a experiência transficcional de outras maneiras também. Foi assim que assisti ao filme As horas, de Stephen Daldry, uma adaptação do romance de Michael Cunningham As horas, por sua vez uma transposição de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. * Vi o filme e depois reli o livro de Virginia Woolf, mas até hoje não me interessei muito pelo de Cunningham.

No mês passado, fui assistir a Gemma Bovery, de Anne Fontaine. Trata-se de uma adaptação da graphic novel homônima de Posy Simmonds, que conta a história de uma jovem inglesa recém-chegada a uma pequena cidade francesa.  Na visão do padeiro Martin Joubert, seu vizinho, Gemma é em tudo semelhante à heroína de Flaubert. Joubert é um ex-livreiro e “lê” a história de Gemma como uma fiel transcrição do romance Madame Bovary, usando-o como chave para entender a mulher por quem está apaixonado.

Há quem diga que o personagem mais intrigante de Flaubert é ele mesmo. Ao sair do cinema e chegar a casa, eu só queria continuar com ele. No meio dos livros por ler, encontrei o que procurava: O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, cujo narrador é, como Joubert, um leitor contumaz do mestre de Salambô. No seu caso, porém, a necessidade de associar o real à ficção toma a forma de uma pesquisa, que inclui visitas a locais onde viveu o artista, alguns esboços de organização cronológica de fatos e impiedosas críticas ao trabalho dos críticos impiedosos. Todo esse trabalho desordenadamente apaixonado – como soem ser todas as pesquisas - tem um profundo impacto em sua própria vida.

Madame Bovary é obra fundadora da literatura universal. Ela retoma questões já presentes em A mulher de trinta anos, de Balzac, mas torna-se algo maior, a exigir respostas. Que foram surgindo em outras obras. Bovary continua em Ana Karenina, de Tolstoi; em Luísa, de Eça de Queirós; em Capitu, de Machado de Assis. Continua viva também em Clarissa Dalloway – é bom lembrar que Woolf era uma grande leitora de Flaubert.

É disso que se trata, afinal. De como os livros nos ensinam a ler e escrever o mundo. E de como essa leitura é contínua. A gente chega à última página, mas a ação de ler se perpetua na reelaboração das imagens e na antecipação do que virá depois.


BARNES, Julien. O papagaio de Flaubert. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. São Paulo: Boitempo, 2006.**


* Tanto o filme de Daldry como o romance de Cunningham referem acontecimentos de um dia na vida de três mulheres que, em épocas diferentes, guardam uma relação com o romance Mrs. Dalloway: Virginia Woolf, a autora do livro; Laura Brown, a leitora; e Clarissa Vaughan, uma editora que vive, nos dias atuais, experiências semelhantes às da personagem-título.

**Em domínio público, o romance de Virginia Woolf está disponível em vários endereços.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia


Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis para os quais não têm a menor propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.
                                           Oscar Wilde

A Quadrienal de Praga, considerada o maior evento na área da cenografia no mundo, apresenta, nestes dias - de 17 a 28 de junho - sua 13ª edição. Participam 68 países com trabalhos de diferentes gêneros do design e da performance – figurinos, palco, iluminação, sonoplastia, e arquitetura teatral para dança, ópera, teatro, site specific, performances multidiáticas e artes performáticas, etc.

O Brasil expõe, desta vez, as obras de 29 artistas. Entre eles, o livro de Samuel Abrantes, Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia. Samuel Abrantes é figurinista de teatro, professor de Indumentária na UFRJ, criador de fantasias carnavalescas e autor dos livros Sobre os signos de Omolu, Heróis e bufões: o figurino encena e Poética têxtil: figurinos, memórias e texturas, que abrangem e documentam 20 anos de sua formação e atuação profissional. No novo livro, o professor nos fala de Samile Embaixatriz Cunha, personagem por ele criada no período 2003-2004, momento em que se afastava da atividade teatral e se encaminhava para o doutorado.  

Desde que pela primeira vez tomei contato com o livro, algum tempo antes do lançamento, em 2014, impressionou-me a profundidade e a beleza do texto. De imediato, reconheci a combinação de elementos de narrativa e ensaio, já anunciada nas obras anteriores de Samuel; aos poucos, porém, percebi a engenhosidade do novo arranjo, que torna esta obra mais contundente.

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia nos proporciona todas as emoções de uma boa história em que o narrador expõe seus conflitos e contradições: de um lado, a certeza de uma crise significativa daquilo que parecia natural – o masculino – e, por outro, a instauração de um sistema de novos signos gerenciador de sentidos, baseado na liberdade criativa, no bom humor, no burlesco e na ironia – o transformista. O livro nos conta do surgimento da personagem e do caminho percorrido para compor a sua “sintaxe visual”: Inicialmente, o figurino de Samile era assinalado pelo exagero, pela suntuosidade dos penteados e dos bordados. Confirmava a produção de valor pela função exterior e conferia à aparência o poder de seduzir, pelo traje e excesso de maquiagem.

À medida que a leitura avança, vemos Samile ganhar forma e espaço na vida social. Cada vez mais, é ela quem se apresenta e comparece às reuniões. Ela possui um encantamento vulnerável e incorpora o sentido de transcendência de suas ações, na arbitrariedade das regras e na libertação do cerimonial que algumas situações configuram.  Enquanto o tímido professor assiste perplexo às suas negaças e testemunha seus ardis, Samile impõe-se com delicada firmeza e mostra a que veio. Para ela são os aplausos, as flores e todos os cliques.

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia, por outro lado – e sobretudo –,  propõe um pensar sobre o ato de ruptura que permitiu a Samuel engendrar Samile. Para fomentar essa reflexão, opera com dicotomias/oposições. À construção do corpo pelo figurino contrapõe-se a manifestação da persona pela make. Ao rigor da prática acadêmica, a transgressão da performance. Ao vestir-se da transformista, o despir-se do artista.

Rico em imagens, como, de resto, outros livros seus, este exige um olhar mais sensível e arguto. Desfilando diante de nossos olhos, é a rainha embaixatriz que nos observa, perscrutando nossas reações e sensações. A mim, o livro surpreendeu-me pela ousadia e aguçou-me a esperança. Se há Samile, então a intolerância vai perder a guerra.


ABRANTES, Samuel. Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia. Rio de Janeiro: RIO Book’s, 2014.

terça-feira, 16 de junho de 2015

O irmão alemão

Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organizações e coisas práticas, os nossos homens de ideias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 163.

Quanto de realidade encontramos no texto ficcional? Quanto do narrador é o autor? Admite-se facilmente a presença de Machado de Assis no Conselheiro Aires, mas teme-se reconhecê-la em Brás Cubas. Vejam só, logo o Brás, que, como seu artífice, não transmitiu a ninguém o legado da miséria humana. É bom que o velho bruxo esteja na figura do digno, do sábio Aires, mas como aceitá-lo na do falso, mesquinho, ignóbil Cubas? Quanto de Machado há em cada um dos dois? Ou em Bentinho?

Questões semelhantes são levantadas pela leitura de O irmão alemão. Em tempos bicudos, quando se autorizam as biografias até então não autorizadas, malandro (de ópera) é Chico Buarque, que criou uma obra de ficção partindo de sua história de vida. A experiência não é nova em literatura, mas nem sempre é tão claramente assumida. Se a trama central – a descoberta e a investigação do irmão alemão – não é a fiel reprodução de fatos verídicos, certamente neles se fundamenta, como atestam os documentos apresentados na obra.

Decididamente, O irmão alemão não conta a vida do seu autor.  Vê-se logo que Assunta não é Maria Amélia. E que Ciccio não é Chico. Não cursa arquitetura, não é compositor e não se casa. Além disso, tem apenas um irmão – Domingos, o Mino. Isso não impede, porém, que o livro recrie a história de Chico.  A autenticidade da relação pai-filho é estabelecida pelo uso dos nomes Sérgio e Francisco. Com tudo para ser uma autobiografia, O irmão alemão abre mão de sê-lo. E se inscreve como um romance sobre irmãos e sobre livros.

Um livro sobre irmãos, no qual a experiência da fraternidade é vivida em diferentes dimensões – da dominicana à franciscana. No livro de Chico Buarque, irmão é o concorrente. Aquele que disputa e coopera. É Mino, que suscita em Ciccio ciúme, inveja e emulação. A outra face da mesma moeda. “Só quem frequentasse muito a nossa casa, ou estudasse uma rara foto da família reunida, notaria que nós dois não somos propriamente opostos, e sim complementares.” Aquele que lhe permite identificar-se como “o irmão de meu irmão”.

Irmão é também o aliado. Aquele que partilha e pactua. É Ariosto, seu parceiro e cúmplice de pequenos crimes. “Nós éramos unha e carne desde o jardim de infância, onde ele me emprestava bolas de gude, comia a goiabada da minha merenda e se chamava Pernalonga.” Aquele que o faz definir-se como amigo.

Irmão é, sobretudo, o outro. Aquele que se quer conhecer, mas que permanece desconhecido. É Sérgio, que Ciccio buscava e jamais encontraria. “Mas à medida que a câmera fechasse em Sergio, mais eu veria nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do meu pai. Seria do pai sua maneira de pitar o cigarro retraindo os lábios e de atirar longe a bituca com um peteleco”. Aquele que lhe revela seu próprio rosto.

Um livro sobre livros, no qual os acontecimentos se dão entre os livros, em torno deles. Em O irmão alemão, os livros compõem o cenário e forjam as relações, ocupam e demarcam territórios. No quarto dos pais de Ciccio, estavam Marx, Engels, Trótski e Gramsci. No de seu irmão Mino, encontravam-se Calderón de La Barca e Cervantes. Os livros suscitam perguntas e propõem enigmas, dão pistas e índices. Entre as páginas de O ramo de ouro, numa edição inglesa de 1922, Francisco encontra um bilhete de Anne endereçado a seu pai e desperta para a real possibilidade de um irmão.

Os livros materializam o saber, que não é só de conteúdo, mas de ordenação. A Assunta cabe preservar os espaços, pois só ela tem livre acesso a todos eles, fazendo a necessária mediação. É Assunta quem arruma os livros; só ela sabe recolocá-los, ordenando o caos deixado por Sérgio. O conhecimento dos livros confere poder. Ao menos é que espera Francisco: “Gabola, gabarola, cabotino, meus colegas não me perdoavam por ostentar os livros autografados do meu pai nos corredores da faculdade de letras.”

Ao contar sua história (o que houve e o que não houve, mas poderia haver), Francisco  foi franco. Quem quiser que conte outra.

HOLANDA, C. B. O irmão alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.





quarta-feira, 3 de junho de 2015

Curtinhas II



Jesus Cristo bebia cerveja

Ainda não conhecia Afonso Cruz quando deparei seu surpreendente Jesus Cristo bebia cerveja. No meio dos recém-chegados, lá estava ele, com seu título inusitado. Separei-o e esperei até que pudesse lê-lo.

A orelha me forneceu informações sobre a original história, mas não permitiu antecipar a razão do título. Só me disse que se tratava da história de Rosa e do seu plano para ajudar sua avó a realizar seu sonho: conhecer Jerusalém.

Jesus Cristo bebia cerveja é, sem dúvida, uma obra singular, com uma linguagem bastante próxima da cinematográfica, que Cruz tão bem domina – além de escritor e ilustrador, ele é cineasta. Nada parece menos alentejano do que um romance em que as personagens se envolvem na criação de uma encenação – identificando locações, roteirizando, selecionando o elenco, construindo cenários e participando do espetáculo. Nada menos alentejano que um romance narrado no presente, em que o pretérito é o tempo da memória.

Muitas vezes, ao ler um livro, gosto de me perceber ingênua, a cair nas armadilhas do texto. Achei, então, muito bonito ler cada página à procura da explicação do título. Quem nunca? E, afinal, Jesus Cristo bebia cerveja mesmo. Isto, sim, parece bem alentejano.

CRUZ, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.


Cartas a um jovem cientista

Cartas a um jovem cientista é um conjunto de vinte textos dirigidos a jovens que estão por se iniciar ou há pouco se iniciaram na atividade científica. Nesses textos, que Edward Wilson denomina “cartas”, pois não têm, como ele diz, “nem a forma nem o tom tradicionais”, encontramos seus pensamentos sobre o que é necessário conhecer e fazer para construir uma trajetória no campo da ciência e da pesquisa. Essas reflexões são ilustradas por exemplos das vidas de grandes nomes da ciência, mas, sobretudo, por casos por ele protagonizados – as histórias de suas dúvidas, conquistas e fracassos.

Com objetividade e franqueza, de uma forma bastante pessoal, Wilson ajuda os que desejam ingressar na atividade científica a desconstruir alguns mitos. Afirma claramente que ninguém deixa de ser cientista por ter limitado conhecimento de matemática. E conta um segredo: que muitos dos mais bem-sucedidos cientistas do mundo não têm qualquer fluência nessa linguagem.

A genialidade é outra das lendas que o livro desmonta. Conforme o autor, dois dos mais notáveis vencedores do Nobel têm, como ele, Wilson, um QI de pouco mais de 120. Estima-se, acrescenta ele, que o de Darwin terá sido algo em torno de 130. Um bom cientista deve ser, nas suas palavras, “brilhante o suficiente para ver o que pode ser feito, mas não tão brilhante a ponto de ficar entediado ao fazê-lo”.

Fantasia, por outro lado, deve ser a marca do homem de ciência. Para Wilson, “o cientista ideal pensa como um poeta”. E destaca a importância da estrutura do pensamento narrativo no processo de construção do conhecimento científico. Nessa perspectiva, realizar uma pesquisa implica imaginar uma história, cujo fecho, espera-se, será a descoberta.

Para os estudantes de ensino médio ou graduandos brasileiros que desejam ser cientistas, assim como para as pessoas que os orientam e apoiam em suas escolhas – familiares e educadores, quase sempre - Cartas a um jovem cientista traz, sem dúvida, uma abordagem interessante. Mas é preciso lembrar que a questão envolve outros desafios – e a exiguidade dos recursos destinados à pesquisa e à formação científica em nosso país é apenas um, mas, certamente, não o menor deles.

WILSON, Edward O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


Criação: A origem da vida / O futuro da vida.

Adam Rutherford, o autor de Criação: A origem da vida / O futuro da vida, é um geneticista inglês, famoso por escrever e realizar documentários sobre biologia para a TV. Seu livro foi lançado em 2013 e considerado, pela crítica, uma excelente obra de divulgação científica.

A obra Criação é constituída de duas partes – A origem da vida e O futuro da vida – que são absolutamente complementares, mas podem ser lidas separadamente. Cada uma delas inicia a obra: o livro não tem quarta capa, mas uma outra capa, de cabeça para baixo. Com isso, o leitor tem, necessariamente, de escolher um caminho, que pode ser o da origem, o do futuro, ou outro qualquer, que ele mesmo, o leitor, queira organizar.

A linguagem é relativamente fácil. Rutherford emprega, sempre que possível, os termos científicos mais simples.  Em vários momentos, vale-se de metáforas didáticas para explicar diferentes fenômenos e processos. Esses recursos, sempre tão questionados, ele os emprega com grande propriedade e – o que é fundamental – com parcimônia.

A obra não tem ilustrações. Faltam os esquemas, as gravuras, as fotografias, que são, tradicionalmente, grandes facilitadores da leitura compreensiva de materiais didáticos ou de divulgação científica. Assim, para “enxergar” as estruturas do DNA e do RNA, por exemplo, o leitor conta apenas com o seu conhecimento prévio em biologia, o qual lhe permite forjar imagens na própria mente. Por outro lado, o livro se vale da dramaticidade – elemento essencial, penso eu, à narração dos grandes fatos primordiais. E é em todo o seu aspecto dramático que o nascimento da Terra é apresentado: a “criação de ordem a partir do caos do sistema solar primitivo”.


RUTHERFORD, Adam. Criação: A origem da vida / O futuro da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Roda dos saberes do Cais do Valongo



É que a história, com efeito, assemelha-se a um cemitério onde o espaço é medido e onde é preciso, a cada instante, achar lugar para cada sepultura.
Maurice Halbwachs
[HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda., 1990, p. 55]

Tenho nas mãos o meu exemplar de Roda dos saberes do Cais do Valongo. Após as primeiras páginas, satisfeita a curiosidade acerca de como se organizam as rodas de capoeira, de saberes e de fazeres daquele que é, segundo Ali Moussa Aye, Diretor de Diversidade da Unesco, “o mais importante sítio de memória da diáspora negra fora da África”, sou assaltada pela velha angústia.  Ao pensar em tudo que foi negado a uma parte dos meus ancestrais, vejo de quanta memória fui privada. Quase nada sei a seu respeito: ignoro seus nomes, em que século chegaram ao Brasil e de que região do continente africano provinham. Posso imaginar que vários deles seriam bantos, o que é quase nada.

Essa ignorância, porém, não me impede de trazê-los muito próximos. Existe na língua umbundu um ditado - Caowa kiso kutima oko cili (em português, Não é porque não vivemos uma história que deixamos de senti-la) – que bem expressa o que nos faz debruçar-nos hoje sobre as lembranças do longo vale. Há naquele espaço narrativas que, se não estão explícitas, são pressentidas e anseiam por vir à luz.

Roda dos saberes do Cais do Valongo nos proporciona um mergulho nessa história há muito sussurrada, mas nunca afirmada alto e bom som. Os vários textos de diversos autores nos mostram que o Valongo não foi apenas um cais e um mercado. Logo após a chegada, serviu como um lugar de quarentena, e, com o passar do tempo, também de sociabilidade. De martírio e humilhação, mas de aprendizado da nova língua e dos modos de convivência.

Os textos nos advertem, também, de que a antiga contradição permanece, sob nova forma. Lançando um olhar sobre manifestações culturais como o samba, a capoeira e o funk, assinalam um longo caminho que vai da mais dura repressão a uma aceitação que ainda está longe de ser completa. E falam, sobretudo, de um esforço coletivo para fazer um grande ruído no cais que por mais de um século se cobriu de silêncio.

De linguagem fácil – os textos são as palestras das rodas de saberes – o livro é, sobretudo, um convite. Ele nos convoca a lembrar aquilo que nunca vivemos e a ir até as rodas para viver aquilo que não podemos esquecer. Ele não se encontra à venda. Para conhecê-lo, basta acessar


Roda dos saberes do Cais do Valongo / Carlo Alexandre Teixeira (org.) Délcio Teobaldo (ed.). Niterói, RJ: Kabula Artes e Projetos, 2015.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Curtinhas I


O caixão rastejante e outras assombrações de família

Livro para crianças tem de ser livro bom. Afinal, criança merece o melhor.

E como saber se o livro infantil é bom? Cada um tem sua receita, então vou dar uma que não falha. Leia e reflita sobre o seu próprio ato de leitura. Você se interessou de verdade pelo que estava lendo?  Sentiu prazer ao ler? Emocionou-se? Viajou na(s) história(s)? Se sentiu menos do que isso, o doce não ficou no ponto. Você pode dizer que o livro é, no máximo, bonzinho.

Toda essa conversa para contar que acabo de ler um livro infantil capaz de encantar todo mundo, inclusive os miúdos. Como, aliás, deve fazer toda obra para crianças. É O caixão rastejante e outras assombrações de família, da Angela Lago. Historinhas curtas de assombração, muito gostosas de ler.

As primeiras histórias são fáceis para adultos, pois parecem passíveis de racionalização. Você as lê e pensa: “Não vê que foi ilusão? Bobo é quem acredita.” E aí, gente grande muito boba, você continua lendo e se enreda de vez. Foi assim comigo: impressionei.


LAGO, Angela. O caixão rastejante e outras assombrações de família. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2015.

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Constelação de gênios: Uma biografia do ano de 1922

Ezra Pound considerava 1922 como o Ano Um de uma nova era. Kevin Jackson acreditou tanto nisso, que resolveu demonstrar por quê. Daí surgiu Constelação de gênios: Uma biografia do ano de 1922, em que ele relaciona dia a dia, mês a mês, as efemérides daquele que muitos consideram o annus mirabilis do modernismo literário.

Como observa Jackson, “1922 foi um ano de primeiras vezes, nascimentos e fundações.” Mostrando esse cenário, ele dá ênfase ao lançamento de duas obras literárias, Ulisses, de James Joyce, e A terra devastada, de T. S. Eliot, publicadas, respectivamente, no início e no fim daquele ano. As duas obras são por ele consideradas os grandes marcos daquele período de grande ebulição de ideias. É interessante notar que ele credita o desenvolvimento das carreiras de Joyce e Eliot ao esforço de outro artista – Ezra Pound – para promover o trabalho de ambos.

Pode parecer estranho, para quem é brasileiro, olhar o modernismo na perspectiva de um inglês. Explico: a única menção feita ao Brasil é a da Semana de Arte Moderna, com especial destaque para Villa-Lobos e Mário de Andrade. Jackson lembra, aliás, que Pauliceia desvairada, de Mário, é considerada por muitos A terra devastada da literatura latino-americana. Mas a leitura, além de fácil, pode ser proveitosa, especialmente se você é amante de literatura. O conjunto organizado de informações que o livro oferece pode ser de grande utilidade. Vale conferir.


JACKSON, Kevin. Constelação de gênios: Uma biografia do ano de 1922. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

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As descobertas: Os grandes avanços da ciência no século XX

O livro As descobertas, de Kevin Lightman, resulta de uma longa pesquisa, que teve como  objetivo dar a conhecer os grandes avanços da ciência no século XX. Por meio de consulta a especialistas em várias áreas, o autor conseguiu listar mais de uma centena de artigos científicos originais, dos quais selecionou 25. Com base neles, escreveu a respeito das 22 descobertas em ciência pura que ele considera “com maior relevância conceitual, aquelas que mais mudaram o pensamento e promoveram o progresso em seus campos”. 
“Cada descoberta tem sua própria história”, diz o autor na introdução. É isso que ele se propõe a contar. Embora os artigos originais sejam essenciais para sua pesquisa (“A meu ver, os primeiros relatos das grandes descobertas científicas são obras de arte.”), Kevin não se preocupa em reproduzir-lhes pequenos trechos, e sim em fornecer seu conteúdo resumido em linguagem simplificada. Cada descoberta resulta da luta de um indivíduo ou um grupo de indivíduos geniais na busca da solução para um problema. Cada descoberta é apenas uma resposta provisória para uma questão que se torna mais crítica à medida que é investigada.

LIGHTMAN, Alan. As descobertas: Os grandes avanços da ciência no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A autobiografia de Martin Luther King



É preciso que renunciemos a nossos sonhos, abandonemos nossas velhas crenças e nossas amizades anteriores à vida. Não percamos tempo como litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos.
Frantz Fanon, em
Os condenados da terra

Após as primeiras 30 páginas de A autobiografia de Martin Luther King, senti-me entediada e interrompi a leitura. Contribuiu para isso, sem dúvida, o fato de se tratar de uma montagem de textos autobiográficos de King, artigos, ensaios, cartas, discursos, sermões, gravações e documentos diversos. Quase sem diálogos (quando algo semelhante acontece, trata-se apenas de ilustração de uma ideia), seu tom é cuidadosamente medido, impedindo qualquer arroubo. Muito chapa branca.

O organizador do material é Clayborne Carson, de Stanford, diretor do KING PAPERS PROJECT, do Martin Luther King Center for Nonviolent Social Change. O KING PAPERS tem como grande objetivo a edição, em 14 volumes, da obra The papers of Martin Luther King, Jr. (o sétimo volume foi publicado em 2014). Foi a partir do acervo do The papers que Carson organizou, junto com sua equipe, a autobiografia. Esse trabalho consistiu em dispor o material em ordem cronológica e compor relatos em forma de capítulos, condensando as fontes. Carson afirma ter-se mantido o mais possível fiel aos textos originais, introduzindo mudanças apenas para tornar mais fácil a leitura – substituição de pronomes por nomes próprios, acréscimo de conectivos, mudanças de tempos verbais e, em casos extremos, na construção de sentenças. O resultado passou pela leitura da viúva Coretta King.

O livro propõe-se a mostrar o pensamento e a atuação política e religiosa de Martin Luther King; o material foi selecionado, portanto, com base nesse critério.  Nada há, a rigor, do homem King. De sua família, pouco se diz. Coretta é apresentada como uma mulher forte, que de tudo abriu mão para acompanhar o líder em sua luta; os nascimentos dos filhos são apenas rapidamente referidos. O cotidiano do pastor, sua intimidade, tudo desaparece para dar lugar à figura de um grande líder, exemplo de virtude e austeridade.

A essa imagem se contrapõe uma outra, menos heroica. A de um homem cheio de amantes, como denunciava o FBI e como se lê na biografia de seu principal confidente, Ralph Abernathy, pastor da Primeira Igreja Batista de Montgomery. A de um homem constantemente deprimido, conforme Taylor Branch, autor de alguns livros sobre a sua vida. Sobre esse outro King nada nos diz a autobiografia.

Melhor, pensei. Vou ler o discurso sabendo que é só um discurso. Combatendo à sombra,  percebia diversas camadas, muitas vozes falando. Seria, talvez, um homem em diferentes situações e muitas escritas - o sermão preparado na véspera, a fala inflamada de um comício, a declaração solene, o registro das ações de uma campanha. Mas é bom lembrar que boa parte dos textos de King, especialmente os dos púlpitos e palanques, plagiam trechos inteiros de outros autores. Foi, ao que parece, o que concluíram os pesquisadores do KING PAPERS PROJECT. Descobriu-se que famoso “Eu tive um sonho” é uma adaptação não autorizada.

Sorry. A verdade é que desconhecemos de onde King retirou frases de grande impacto como “Mas nós nos erguemos à meia-noite da vida e estamos sempre no limiar de uma nova aurora”  ou  trechos antológicos como
“Sobre algumas posições, a Covardia pergunta ‘É seguro?’, a Conveniência pergunta ‘É político?’ e a vaidade se apresenta e pergunta ‘É popular?’. Mas a Consciência pergunta ‘Está certo?’. E chega um momento em que devemos assumir uma posição que não é segura, nem política, nem popular, mas devemos fazê-lo porque a Consciência nos diz que é certo.”

Mas o que resta, então? A impressionante trajetória de uma figura humana cheia de contradições. Alguém que, tendo lutado e vencido muitas batalhas contra a segregação racial, compreendeu que a luta deveria estender-se a todos os pobres. Que falou aos “deserdados da terra”, mas não se incluiu entre Os condenados da terra (título da obra de Fanon). Que, aliando-se ao poder, rejeitou a expressão black power, mas que, posicionando-se contra a guerra no Vietnã, afirmou que jamais  poderia falar da violência sofrida nos guetos sem primeiro denunciar o “grande produtor de violência no mundo de hoje”: o governo americano. E que assinalou a “cruel ironia de ver rapazes negros e brancos nas telas da TV matando e morrendo juntos por uma nação que tem sido incapaz de fazer com que se sentem juntos nas mesmas escolas.”  

King foi tudo isso e muito mais. A vaidade, a depressão, o machismo – é tudo verdade. Mas Montgomery, Selma e St. Augustine são marcos que persistem. A Marcha sobre Washington  também. Tem que respeitar.

Em tempo: voltei a ele semanas depois da interrupção, retomei a leitura do início e cheguei à última página (430) em três dias.


A autobiografia de Martin Luther King / Martin Luther King. Clayborne Carson (org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A primeira história do mundo


Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar
meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se
todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

Joaquim Manuel de Macedo, em
Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Quando gosto muito de um livro, é com dificuldade que interrompo a leitura. Carrego-o comigo para todos os lugares (Sofro horrores relendo Grande sertão: veredas!).  Deixo-o sempre à mão, mesmo quando estou diante do computador ou da tevê. Sabe-se lá, vai que dá uma vontade incoercível de.

Quando gosto demais de um livro, começo a lê-lo mais devagar a partir do meio. É quase sem perceber que isso acontece. Se o livro é pequeno, “amarro” a leitura. Começo a retomar o que ficou para trás, a registrar minhas impressões. Saboreio cada nova página com lentidão, repisando, remoendo cada frase.

O fim de um livro maravilhoso é algo que me deixa solitária. Mais do que isso, deixa-me ansiosa por uma necessária solidão. Quando o livro maravilhoso termina, quero estar a sós comigo mesma, refletir sobre o que ele me trouxe, o que ele fez comigo. Porque livros maravilhosos fazem coisas com a gente.

Tudo isso senti com A primeira história do mundo, de Aberto Mussa, quando pela primeira vez o li. E olha que não era neófita. Conhecia a obra do autor, o que me permitia entender seu projeto de criar um “compêndio mítico do Rio de Janeiro” em cinco novelas policiais, com tramas que atravessam os cinco séculos de existência da cidade. Iniciado com O trono da rainha Jinga, esse compêndio narra, assim, a grande saga da cidade do Rio de Janeiro, a verdadeira protagonista, pela via da transgressão e da violência, pois, como nos diz o narrador de O senhor do lado esquerdo, o segundo volume da série, “o que define uma cidade é a história de seus crimes”.

Não sou uma leitora ingênua. Já me submeti a muitos dos secretos prazeres e perversões de ler. Ainda assim, fui tocada, provocada por esse livro, herdeiro da melhor tradição de dois gêneros de narrativa: o histórico e o policial. Com respeito ao primeiro, a obra de Mussa transgride seus cânones ao combinar de forma desusada a pesquisa rigorosa de mitos e fatos históricos com a invenção e a especulação. Quanto ao segundo, o livro revisita os recursos tradicionalmente usados por mestres como Agatha Christie. Não existe a tradicional figura do detetive, e os fatos, passados há quase 500 anos, são investigados na época atual. O narrador compartilha pistas e hipóteses com um leitor que se torna seu cúmplice e parceiro de investigação, mas também se dirige a outro leitor – o indeciso, que folheia rapidamente o livro, avaliando se deve adquiri-lo.

Das páginas de A primeira história do mundo emerge o Rio de Janeiro do século XVI, com suas elevações e declives, seus caminhos e edificações. Uma pequena vila cheia de lendas e mistérios. Trata-se da primeira narrativa policial da cidade, mas também da primeira história do mundo porque, na perspectiva mítica – tão verdadeira quanto a histórica, previne o autor –, a Carioca, palco dos fatos narrados, não é somente o lugar de origem do Rio de Janeiro, mas “onde surge a própria humanidade”.  

Uma boa história, quando chega ao fim, deixa uma falta, que às vezes é compensada pela lição que transmite. Um ato de generosidade de quem a narra. A moral de A primeira história do mundo, diz e repete o narrador, é que em uma “cidade onde há mais homens que mulheres, não pode haver virtude”. Levar comigo essa enigmática lição atenua a ausência da fábula. Melhor do que isso, porém, é saber que essa história não acaba aqui. Seu autor foi apenas um pouco além do meio dela. Já nos mostrou o Rio quinhentista e seiscentista e nos envolveu nas tramas da República Velha. O que nos reservam os séculos XVIII e XIX?  Aguardo, paciente, o próximo volume da série, que ainda não é. Essa ansiosa espera dá sentido a tudo ao redor. Especialmente para gente, como eu, apaixonada pelos livros e pela mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.



MUSSA, A. A primeira história do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2014.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Vida de cinema


(...) fazer do leitor um cúmplice, um companheiro de viagem. Simultaneizá-lo, visto que a leitura abolirá o tempo do leitor e o transportará para o tempo do autor.
    Julio Cortázar, em O jogo da amarelinha

Este é um tempo de (auto)biografias. Algumas interessantes, outras nem tanto. Contar a história de uma (pior ainda, a própria) vida não é tão simples como parece, especialmente quando se pretende mostrar com clareza em que contextos se deram os fatos narrados, mas sem perder a leveza jamais.

Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo, de Cacá Diegues, enfrenta esse desafio de modo bastante peculiar. A obra é estruturada em centenas de minicapítulos, pequenas unidades que se apresentam agrupadas em sete grandes partes, na verdade sete períodos da vida do cineasta. Como ele explica no seu “Prefacinho”, trata-se de “uma espécie de almanaque, em que, se você quiser, pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas.”

Cá entre nós, suspeito que, ao oferecer a possibilidade de remontagem de sua obra, todo autor sorri secreta e complacentemente, certo de que seus leitores adotarão o modo tradicional de leitura, indo em linha reta, sem pular nada, da página inicial à última. Lembro-me de, no meu primeiro contato com O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, há mais de quarenta anos, ter pensado em fazer a leitura não linear sugerida pelo autor. Acabei por escolher a leitura longa, que, acredito, deu-me a visão do todo - uma das minhas obsessões. A mesma opção fiz agora com o livro de Cacá.

No gênero autobiografia estão em jogo a construção da identidade e a discussão da verdade. O eu da autobiografia enreda-se: explica-se, expõe-se à investigação do leitor, arrisca-se a ficar desacreditado. Em alguns momentos de Vida de cinema, o autor parece cair na armadilha de justificar seus atos e melhorar a própria imagem. Sente-se obrigado a dar sua própria versão de fatos que teriam merecido outras, inverídicas. Suas atitudes e posicionamentos nem sempre foram corretamente interpretados, é o que alega. Nessas horas, tendemos a distanciar-nos e a sopesar cada palavra que ele diz. São mais numerosas, porém, as passagens em que, com surpreendente sinceridade e despudor, admite erros, confessa fraquezas e assume incoerências. É quando nos persuade e alicia.

A narrativa propriamente dita de Vida de cinema se encerra na sétima parte do livro, com os acontecimentos datados de 1995. No “Posfácio provisório”, o autor enumera os principais fatos subsequentes e tece considerações sobre sua história. Uma delas é “Tentei sempre ser cúmplice de meu tempo”, com a qual sintetiza a coerência, o compromisso e a criticidade que imprimiu a sua trajetória.
 
Vida de cinema. Vida ou cinema? Se o livro fosse transformado em roteiro e a vida em filme, eu gostaria de ver o diretor em sua cadeira, lutando para finalizar a obra. Para anteceder os créditos, ele poderia escolher uma frase que se encontra lá atrás: “A vida é mais importante que o cinema. Mas a vantagem do cinema é que, no filme, há a possibilidade de cortes, elipses, alternativas para eliminar o dispensável, enquanto a vida é feita de um único e interminável plano sequência linear, um só travelling cheio de excessivos tempos mortos.”


DIEGUES, C. Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Que blog é este?

Este blog é dedicado à leitura.

Quero aqui registrar impressões sobre os livros que leio, assim como notas sobre o ato da leitura – coisas que venho observando desde que aprendi a ler.

Ser uma leitora – contumaz, apaixonada e crítica – é um aspecto essencial da minha personalidade. Os livros são, para mim, mais do que objetos, entidades que frequentam a minha vida, que me fornecem elementos para entendê-la e até forjá-la.