quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Narrativas por trás da narrativa I




O autor em seu livro deve ser como Deus em seu universo:
presente em toda parte e visível em nenhuma.
Gustave Flaubert

Foi na adolescência que adquiri o perigoso hábito. Houve um período em que o cinema mais próximo oferecia uma programação de dois ou três filmes “de arte” (como os chamávamos à época) do mesmo diretor. No início, eu ia com colegas de escola, jovens cinéfilos como eu. Aos poucos, porém, a necessidade aumentou e eu não podia esperar pelos outros. Dois ou três filmes (seguidos) de Bergman! Ou de Buñuel, ou de Godard... Entre as duas doses, algo para acelerar o efeito: algumas páginas de um livro.

De lá para cá, a associação literatura-cinema só ganhou força na minha cabeça. Diferentemente de outras pessoas que não suportam assistir a adaptações de romances para a tela (algumas são mesmo horríveis...), eu não resisto a “casar” as duas histórias. O modo mais frequente é, antes de ir ao cinema, começar a reler a obra. Quando já estou no clima, interrompo a leitura e vou ao cinema. Retomo o livro no mesmo dia, às vezes.

Vivo a experiência transficcional de outras maneiras também. Foi assim que assisti ao filme As horas, de Stephen Daldry, uma adaptação do romance de Michael Cunningham As horas, por sua vez uma transposição de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. * Vi o filme e depois reli o livro de Virginia Woolf, mas até hoje não me interessei muito pelo de Cunningham.

No mês passado, fui assistir a Gemma Bovery, de Anne Fontaine. Trata-se de uma adaptação da graphic novel homônima de Posy Simmonds, que conta a história de uma jovem inglesa recém-chegada a uma pequena cidade francesa.  Na visão do padeiro Martin Joubert, seu vizinho, Gemma é em tudo semelhante à heroína de Flaubert. Joubert é um ex-livreiro e “lê” a história de Gemma como uma fiel transcrição do romance Madame Bovary, usando-o como chave para entender a mulher por quem está apaixonado.

Há quem diga que o personagem mais intrigante de Flaubert é ele mesmo. Ao sair do cinema e chegar a casa, eu só queria continuar com ele. No meio dos livros por ler, encontrei o que procurava: O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, cujo narrador é, como Joubert, um leitor contumaz do mestre de Salambô. No seu caso, porém, a necessidade de associar o real à ficção toma a forma de uma pesquisa, que inclui visitas a locais onde viveu o artista, alguns esboços de organização cronológica de fatos e impiedosas críticas ao trabalho dos críticos impiedosos. Todo esse trabalho desordenadamente apaixonado – como soem ser todas as pesquisas - tem um profundo impacto em sua própria vida.

Madame Bovary é obra fundadora da literatura universal. Ela retoma questões já presentes em A mulher de trinta anos, de Balzac, mas torna-se algo maior, a exigir respostas. Que foram surgindo em outras obras. Bovary continua em Ana Karenina, de Tolstoi; em Luísa, de Eça de Queirós; em Capitu, de Machado de Assis. Continua viva também em Clarissa Dalloway – é bom lembrar que Woolf era uma grande leitora de Flaubert.

É disso que se trata, afinal. De como os livros nos ensinam a ler e escrever o mundo. E de como essa leitura é contínua. A gente chega à última página, mas a ação de ler se perpetua na reelaboração das imagens e na antecipação do que virá depois.


BARNES, Julien. O papagaio de Flaubert. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. São Paulo: Boitempo, 2006.**


* Tanto o filme de Daldry como o romance de Cunningham referem acontecimentos de um dia na vida de três mulheres que, em épocas diferentes, guardam uma relação com o romance Mrs. Dalloway: Virginia Woolf, a autora do livro; Laura Brown, a leitora; e Clarissa Vaughan, uma editora que vive, nos dias atuais, experiências semelhantes às da personagem-título.

**Em domínio público, o romance de Virginia Woolf está disponível em vários endereços.

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