quarta-feira, 27 de maio de 2015

Roda dos saberes do Cais do Valongo



É que a história, com efeito, assemelha-se a um cemitério onde o espaço é medido e onde é preciso, a cada instante, achar lugar para cada sepultura.
Maurice Halbwachs
[HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda., 1990, p. 55]

Tenho nas mãos o meu exemplar de Roda dos saberes do Cais do Valongo. Após as primeiras páginas, satisfeita a curiosidade acerca de como se organizam as rodas de capoeira, de saberes e de fazeres daquele que é, segundo Ali Moussa Aye, Diretor de Diversidade da Unesco, “o mais importante sítio de memória da diáspora negra fora da África”, sou assaltada pela velha angústia.  Ao pensar em tudo que foi negado a uma parte dos meus ancestrais, vejo de quanta memória fui privada. Quase nada sei a seu respeito: ignoro seus nomes, em que século chegaram ao Brasil e de que região do continente africano provinham. Posso imaginar que vários deles seriam bantos, o que é quase nada.

Essa ignorância, porém, não me impede de trazê-los muito próximos. Existe na língua umbundu um ditado - Caowa kiso kutima oko cili (em português, Não é porque não vivemos uma história que deixamos de senti-la) – que bem expressa o que nos faz debruçar-nos hoje sobre as lembranças do longo vale. Há naquele espaço narrativas que, se não estão explícitas, são pressentidas e anseiam por vir à luz.

Roda dos saberes do Cais do Valongo nos proporciona um mergulho nessa história há muito sussurrada, mas nunca afirmada alto e bom som. Os vários textos de diversos autores nos mostram que o Valongo não foi apenas um cais e um mercado. Logo após a chegada, serviu como um lugar de quarentena, e, com o passar do tempo, também de sociabilidade. De martírio e humilhação, mas de aprendizado da nova língua e dos modos de convivência.

Os textos nos advertem, também, de que a antiga contradição permanece, sob nova forma. Lançando um olhar sobre manifestações culturais como o samba, a capoeira e o funk, assinalam um longo caminho que vai da mais dura repressão a uma aceitação que ainda está longe de ser completa. E falam, sobretudo, de um esforço coletivo para fazer um grande ruído no cais que por mais de um século se cobriu de silêncio.

De linguagem fácil – os textos são as palestras das rodas de saberes – o livro é, sobretudo, um convite. Ele nos convoca a lembrar aquilo que nunca vivemos e a ir até as rodas para viver aquilo que não podemos esquecer. Ele não se encontra à venda. Para conhecê-lo, basta acessar


Roda dos saberes do Cais do Valongo / Carlo Alexandre Teixeira (org.) Délcio Teobaldo (ed.). Niterói, RJ: Kabula Artes e Projetos, 2015.

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