É que a história, com efeito, assemelha-se a
um cemitério onde o espaço é medido e onde é preciso, a cada instante, achar
lugar para cada sepultura.
Maurice
Halbwachs
[HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais Ltda., 1990, p. 55]
Tenho nas mãos o meu exemplar de Roda dos saberes do Cais do Valongo. Após
as primeiras páginas, satisfeita a curiosidade acerca de como se organizam as
rodas de capoeira, de saberes e de fazeres daquele que é, segundo Ali Moussa
Aye, Diretor de Diversidade da Unesco, “o mais importante sítio de memória da
diáspora negra fora da África”, sou assaltada pela velha angústia. Ao pensar em tudo que foi negado a uma parte
dos meus ancestrais, vejo de quanta memória fui privada. Quase nada sei a seu
respeito: ignoro seus nomes, em que século chegaram ao Brasil e de que região
do continente africano provinham. Posso imaginar que vários deles seriam bantos,
o que é quase nada.
Essa ignorância, porém, não me
impede de trazê-los muito próximos. Existe na língua umbundu um ditado - Caowa kiso kutima oko cili (em
português, Não é porque não vivemos uma
história que deixamos de senti-la) – que bem expressa o que nos faz
debruçar-nos hoje sobre as lembranças do longo vale. Há naquele espaço
narrativas que, se não estão explícitas, são pressentidas e anseiam por vir à
luz.
Roda dos saberes do Cais do Valongo nos proporciona um mergulho
nessa história há muito sussurrada, mas nunca afirmada alto e bom som. Os vários
textos de diversos autores nos mostram que o Valongo não foi apenas um cais e
um mercado. Logo após a chegada, serviu como um lugar de quarentena, e, com o
passar do tempo, também de sociabilidade. De martírio e humilhação, mas de
aprendizado da nova língua e dos modos de convivência.
Os textos nos advertem, também, de
que a antiga contradição permanece, sob nova forma. Lançando um olhar sobre manifestações
culturais como o samba, a capoeira e o funk, assinalam um longo caminho que vai
da mais dura repressão a uma aceitação que ainda está longe de ser completa. E
falam, sobretudo, de um esforço coletivo para fazer um grande ruído no cais que
por mais de um século se cobriu de silêncio.
De linguagem fácil – os textos
são as palestras das rodas de saberes – o livro é, sobretudo, um convite. Ele
nos convoca a lembrar aquilo que nunca vivemos e a ir até as rodas para viver
aquilo que não podemos esquecer. Ele não se encontra à venda. Para conhecê-lo, basta
acessar
Roda dos saberes do Cais do
Valongo / Carlo Alexandre Teixeira (org.) Délcio Teobaldo (ed.). Niterói, RJ:
Kabula Artes e Projetos, 2015.
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