segunda-feira, 6 de abril de 2015

A autobiografia de Martin Luther King



É preciso que renunciemos a nossos sonhos, abandonemos nossas velhas crenças e nossas amizades anteriores à vida. Não percamos tempo como litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos.
Frantz Fanon, em
Os condenados da terra

Após as primeiras 30 páginas de A autobiografia de Martin Luther King, senti-me entediada e interrompi a leitura. Contribuiu para isso, sem dúvida, o fato de se tratar de uma montagem de textos autobiográficos de King, artigos, ensaios, cartas, discursos, sermões, gravações e documentos diversos. Quase sem diálogos (quando algo semelhante acontece, trata-se apenas de ilustração de uma ideia), seu tom é cuidadosamente medido, impedindo qualquer arroubo. Muito chapa branca.

O organizador do material é Clayborne Carson, de Stanford, diretor do KING PAPERS PROJECT, do Martin Luther King Center for Nonviolent Social Change. O KING PAPERS tem como grande objetivo a edição, em 14 volumes, da obra The papers of Martin Luther King, Jr. (o sétimo volume foi publicado em 2014). Foi a partir do acervo do The papers que Carson organizou, junto com sua equipe, a autobiografia. Esse trabalho consistiu em dispor o material em ordem cronológica e compor relatos em forma de capítulos, condensando as fontes. Carson afirma ter-se mantido o mais possível fiel aos textos originais, introduzindo mudanças apenas para tornar mais fácil a leitura – substituição de pronomes por nomes próprios, acréscimo de conectivos, mudanças de tempos verbais e, em casos extremos, na construção de sentenças. O resultado passou pela leitura da viúva Coretta King.

O livro propõe-se a mostrar o pensamento e a atuação política e religiosa de Martin Luther King; o material foi selecionado, portanto, com base nesse critério.  Nada há, a rigor, do homem King. De sua família, pouco se diz. Coretta é apresentada como uma mulher forte, que de tudo abriu mão para acompanhar o líder em sua luta; os nascimentos dos filhos são apenas rapidamente referidos. O cotidiano do pastor, sua intimidade, tudo desaparece para dar lugar à figura de um grande líder, exemplo de virtude e austeridade.

A essa imagem se contrapõe uma outra, menos heroica. A de um homem cheio de amantes, como denunciava o FBI e como se lê na biografia de seu principal confidente, Ralph Abernathy, pastor da Primeira Igreja Batista de Montgomery. A de um homem constantemente deprimido, conforme Taylor Branch, autor de alguns livros sobre a sua vida. Sobre esse outro King nada nos diz a autobiografia.

Melhor, pensei. Vou ler o discurso sabendo que é só um discurso. Combatendo à sombra,  percebia diversas camadas, muitas vozes falando. Seria, talvez, um homem em diferentes situações e muitas escritas - o sermão preparado na véspera, a fala inflamada de um comício, a declaração solene, o registro das ações de uma campanha. Mas é bom lembrar que boa parte dos textos de King, especialmente os dos púlpitos e palanques, plagiam trechos inteiros de outros autores. Foi, ao que parece, o que concluíram os pesquisadores do KING PAPERS PROJECT. Descobriu-se que famoso “Eu tive um sonho” é uma adaptação não autorizada.

Sorry. A verdade é que desconhecemos de onde King retirou frases de grande impacto como “Mas nós nos erguemos à meia-noite da vida e estamos sempre no limiar de uma nova aurora”  ou  trechos antológicos como
“Sobre algumas posições, a Covardia pergunta ‘É seguro?’, a Conveniência pergunta ‘É político?’ e a vaidade se apresenta e pergunta ‘É popular?’. Mas a Consciência pergunta ‘Está certo?’. E chega um momento em que devemos assumir uma posição que não é segura, nem política, nem popular, mas devemos fazê-lo porque a Consciência nos diz que é certo.”

Mas o que resta, então? A impressionante trajetória de uma figura humana cheia de contradições. Alguém que, tendo lutado e vencido muitas batalhas contra a segregação racial, compreendeu que a luta deveria estender-se a todos os pobres. Que falou aos “deserdados da terra”, mas não se incluiu entre Os condenados da terra (título da obra de Fanon). Que, aliando-se ao poder, rejeitou a expressão black power, mas que, posicionando-se contra a guerra no Vietnã, afirmou que jamais  poderia falar da violência sofrida nos guetos sem primeiro denunciar o “grande produtor de violência no mundo de hoje”: o governo americano. E que assinalou a “cruel ironia de ver rapazes negros e brancos nas telas da TV matando e morrendo juntos por uma nação que tem sido incapaz de fazer com que se sentem juntos nas mesmas escolas.”  

King foi tudo isso e muito mais. A vaidade, a depressão, o machismo – é tudo verdade. Mas Montgomery, Selma e St. Augustine são marcos que persistem. A Marcha sobre Washington  também. Tem que respeitar.

Em tempo: voltei a ele semanas depois da interrupção, retomei a leitura do início e cheguei à última página (430) em três dias.


A autobiografia de Martin Luther King / Martin Luther King. Clayborne Carson (org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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