É
preciso que renunciemos a nossos sonhos, abandonemos nossas velhas crenças e
nossas amizades anteriores à vida. Não percamos tempo como litanias estéreis ou
mimetismos nauseabundos.
Frantz Fanon, em
Os condenados da terra
Após as primeiras 30 páginas de A autobiografia de Martin Luther King,
senti-me entediada e interrompi a leitura. Contribuiu para isso, sem dúvida, o
fato de se tratar de uma montagem de textos autobiográficos de King, artigos,
ensaios, cartas, discursos, sermões, gravações e documentos diversos. Quase sem
diálogos (quando algo semelhante acontece, trata-se apenas de ilustração de uma
ideia), seu tom é cuidadosamente medido, impedindo qualquer arroubo. Muito
chapa branca.
O organizador do material é
Clayborne Carson, de Stanford, diretor do KING PAPERS PROJECT, do Martin Luther
King Center for Nonviolent Social Change. O KING PAPERS tem como grande
objetivo a edição, em 14 volumes, da obra The
papers of Martin Luther King, Jr. (o sétimo volume foi publicado em 2014).
Foi a partir do acervo do The papers que
Carson organizou, junto com sua equipe, a autobiografia. Esse trabalho
consistiu em dispor o material em ordem cronológica e compor relatos em forma
de capítulos, condensando as fontes. Carson afirma ter-se mantido o mais
possível fiel aos textos originais, introduzindo mudanças apenas para tornar
mais fácil a leitura – substituição de pronomes por nomes próprios, acréscimo
de conectivos, mudanças de tempos verbais e, em casos extremos, na construção
de sentenças. O resultado passou pela leitura da viúva Coretta King.
O livro propõe-se a mostrar o
pensamento e a atuação política e religiosa de Martin Luther King; o material
foi selecionado, portanto, com base nesse critério. Nada há, a rigor, do homem King. De sua
família, pouco se diz. Coretta é apresentada como uma mulher forte, que de tudo
abriu mão para acompanhar o líder em sua luta; os nascimentos dos filhos são
apenas rapidamente referidos. O cotidiano do pastor, sua intimidade, tudo desaparece
para dar lugar à figura de um grande líder, exemplo de virtude e austeridade.
A essa imagem se contrapõe uma
outra, menos heroica. A de um homem cheio de amantes, como denunciava o FBI e
como se lê na biografia de seu principal confidente, Ralph Abernathy, pastor da
Primeira Igreja Batista de Montgomery. A de um homem constantemente deprimido,
conforme Taylor Branch, autor de alguns livros
sobre a sua vida. Sobre esse outro King nada nos diz a autobiografia.
Melhor,
pensei. Vou ler o discurso sabendo que é só um discurso. Combatendo à
sombra, percebia diversas camadas,
muitas vozes falando. Seria, talvez, um homem em diferentes situações e muitas
escritas - o sermão preparado na véspera, a fala inflamada de um comício, a
declaração solene, o registro das ações de uma campanha. Mas é bom lembrar que
boa parte dos textos de King, especialmente os dos púlpitos e palanques, plagiam
trechos inteiros de outros autores. Foi, ao que parece, o que concluíram os
pesquisadores do KING PAPERS PROJECT. Descobriu-se que famoso “Eu tive
um sonho” é uma adaptação não autorizada.
Sorry. A verdade é que desconhecemos de onde King retirou frases de
grande impacto como “Mas nós nos erguemos à meia-noite da vida e estamos sempre
no limiar de uma nova aurora” ou trechos antológicos como
“Sobre algumas
posições, a Covardia pergunta ‘É seguro?’, a Conveniência pergunta ‘É
político?’ e a vaidade se apresenta e pergunta ‘É popular?’. Mas a Consciência
pergunta ‘Está certo?’. E chega um momento em que devemos assumir uma posição
que não é segura, nem política, nem popular, mas devemos fazê-lo porque a
Consciência nos diz que é certo.”
Mas o que resta, então? A
impressionante trajetória de uma figura humana cheia de contradições. Alguém
que, tendo lutado e vencido muitas batalhas contra a segregação racial, compreendeu
que a luta deveria estender-se a todos os pobres. Que falou aos “deserdados da
terra”, mas não se incluiu entre Os
condenados da terra (título da obra de Fanon). Que, aliando-se ao poder,
rejeitou a expressão black power, mas
que, posicionando-se contra a guerra no Vietnã, afirmou que jamais poderia falar da violência sofrida nos guetos
sem primeiro denunciar o “grande produtor de violência no mundo de hoje”: o
governo americano. E que assinalou a “cruel ironia de ver rapazes negros e
brancos nas telas da TV matando e morrendo juntos por uma nação que tem sido
incapaz de fazer com que se sentem juntos nas mesmas escolas.”
King foi tudo isso e muito mais. A
vaidade, a depressão, o machismo – é tudo verdade. Mas Montgomery, Selma e St.
Augustine são marcos que persistem. A Marcha sobre Washington também. Tem que respeitar.
Em tempo: voltei a ele semanas
depois da interrupção, retomei a leitura do início e cheguei à última página
(430) em três dias.
A autobiografia de Martin Luther King / Martin Luther King. Clayborne Carson (org.). Rio de
Janeiro: Zahar, 2014.
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