terça-feira, 16 de junho de 2015

O irmão alemão

Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organizações e coisas práticas, os nossos homens de ideias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 163.

Quanto de realidade encontramos no texto ficcional? Quanto do narrador é o autor? Admite-se facilmente a presença de Machado de Assis no Conselheiro Aires, mas teme-se reconhecê-la em Brás Cubas. Vejam só, logo o Brás, que, como seu artífice, não transmitiu a ninguém o legado da miséria humana. É bom que o velho bruxo esteja na figura do digno, do sábio Aires, mas como aceitá-lo na do falso, mesquinho, ignóbil Cubas? Quanto de Machado há em cada um dos dois? Ou em Bentinho?

Questões semelhantes são levantadas pela leitura de O irmão alemão. Em tempos bicudos, quando se autorizam as biografias até então não autorizadas, malandro (de ópera) é Chico Buarque, que criou uma obra de ficção partindo de sua história de vida. A experiência não é nova em literatura, mas nem sempre é tão claramente assumida. Se a trama central – a descoberta e a investigação do irmão alemão – não é a fiel reprodução de fatos verídicos, certamente neles se fundamenta, como atestam os documentos apresentados na obra.

Decididamente, O irmão alemão não conta a vida do seu autor.  Vê-se logo que Assunta não é Maria Amélia. E que Ciccio não é Chico. Não cursa arquitetura, não é compositor e não se casa. Além disso, tem apenas um irmão – Domingos, o Mino. Isso não impede, porém, que o livro recrie a história de Chico.  A autenticidade da relação pai-filho é estabelecida pelo uso dos nomes Sérgio e Francisco. Com tudo para ser uma autobiografia, O irmão alemão abre mão de sê-lo. E se inscreve como um romance sobre irmãos e sobre livros.

Um livro sobre irmãos, no qual a experiência da fraternidade é vivida em diferentes dimensões – da dominicana à franciscana. No livro de Chico Buarque, irmão é o concorrente. Aquele que disputa e coopera. É Mino, que suscita em Ciccio ciúme, inveja e emulação. A outra face da mesma moeda. “Só quem frequentasse muito a nossa casa, ou estudasse uma rara foto da família reunida, notaria que nós dois não somos propriamente opostos, e sim complementares.” Aquele que lhe permite identificar-se como “o irmão de meu irmão”.

Irmão é também o aliado. Aquele que partilha e pactua. É Ariosto, seu parceiro e cúmplice de pequenos crimes. “Nós éramos unha e carne desde o jardim de infância, onde ele me emprestava bolas de gude, comia a goiabada da minha merenda e se chamava Pernalonga.” Aquele que o faz definir-se como amigo.

Irmão é, sobretudo, o outro. Aquele que se quer conhecer, mas que permanece desconhecido. É Sérgio, que Ciccio buscava e jamais encontraria. “Mas à medida que a câmera fechasse em Sergio, mais eu veria nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do meu pai. Seria do pai sua maneira de pitar o cigarro retraindo os lábios e de atirar longe a bituca com um peteleco”. Aquele que lhe revela seu próprio rosto.

Um livro sobre livros, no qual os acontecimentos se dão entre os livros, em torno deles. Em O irmão alemão, os livros compõem o cenário e forjam as relações, ocupam e demarcam territórios. No quarto dos pais de Ciccio, estavam Marx, Engels, Trótski e Gramsci. No de seu irmão Mino, encontravam-se Calderón de La Barca e Cervantes. Os livros suscitam perguntas e propõem enigmas, dão pistas e índices. Entre as páginas de O ramo de ouro, numa edição inglesa de 1922, Francisco encontra um bilhete de Anne endereçado a seu pai e desperta para a real possibilidade de um irmão.

Os livros materializam o saber, que não é só de conteúdo, mas de ordenação. A Assunta cabe preservar os espaços, pois só ela tem livre acesso a todos eles, fazendo a necessária mediação. É Assunta quem arruma os livros; só ela sabe recolocá-los, ordenando o caos deixado por Sérgio. O conhecimento dos livros confere poder. Ao menos é que espera Francisco: “Gabola, gabarola, cabotino, meus colegas não me perdoavam por ostentar os livros autografados do meu pai nos corredores da faculdade de letras.”

Ao contar sua história (o que houve e o que não houve, mas poderia haver), Francisco  foi franco. Quem quiser que conte outra.

HOLANDA, C. B. O irmão alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.





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