Ainda quando se punham a legiferar ou a
cuidar de organizações e coisas práticas, os nossos homens de ideias eram, em
geral, puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus
sonhos e imaginações.
HOLANDA, S. B.
Raízes do Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995, p. 163.
Quanto de realidade encontramos
no texto ficcional? Quanto do narrador é o autor? Admite-se facilmente a
presença de Machado de Assis no Conselheiro Aires, mas teme-se reconhecê-la em
Brás Cubas. Vejam só, logo o Brás, que, como seu artífice, não transmitiu a
ninguém o legado da miséria humana. É bom que o velho bruxo esteja na figura do
digno, do sábio Aires, mas como aceitá-lo na do falso, mesquinho, ignóbil
Cubas? Quanto de Machado há em cada um dos dois? Ou em Bentinho?
Questões semelhantes
são levantadas pela leitura de O irmão alemão.
Em tempos bicudos, quando se autorizam as biografias até então não autorizadas,
malandro (de ópera) é Chico Buarque, que criou uma obra de ficção partindo de
sua história de vida. A experiência não é nova em literatura, mas nem sempre é
tão claramente assumida. Se a trama central – a descoberta e a investigação do
irmão alemão – não é a fiel reprodução de fatos verídicos, certamente neles se
fundamenta, como atestam os documentos apresentados na obra.
Decididamente,
O irmão alemão não conta a vida do seu
autor. Vê-se logo que Assunta não é
Maria Amélia. E que Ciccio não é Chico. Não cursa arquitetura, não é compositor
e não se casa. Além disso, tem apenas um irmão – Domingos, o Mino. Isso não
impede, porém, que o livro recrie a história de Chico. A autenticidade da relação pai-filho é
estabelecida pelo uso dos nomes Sérgio e Francisco. Com tudo para ser uma
autobiografia, O irmão alemão abre
mão de sê-lo. E se inscreve como um romance sobre irmãos e sobre livros.
Um livro sobre
irmãos, no qual a experiência da fraternidade é vivida em diferentes dimensões –
da dominicana à franciscana. No livro de Chico Buarque, irmão é o concorrente. Aquele
que disputa e coopera. É Mino, que suscita em Ciccio ciúme, inveja e emulação.
A outra face da mesma moeda. “Só quem frequentasse muito a nossa casa, ou
estudasse uma rara foto da família reunida, notaria que nós dois não somos
propriamente opostos, e sim complementares.” Aquele que lhe permite
identificar-se como “o irmão de meu irmão”.
Irmão é também o aliado. Aquele que partilha e pactua. É
Ariosto, seu parceiro e cúmplice de pequenos crimes. “Nós éramos unha e
carne desde o jardim de infância, onde ele me emprestava bolas de gude, comia a
goiabada da minha merenda e se chamava Pernalonga.” Aquele que o faz definir-se
como amigo.
Irmão é, sobretudo, o outro. Aquele que se quer conhecer,
mas que permanece desconhecido. É Sérgio, que Ciccio buscava e jamais encontraria.
“Mas à medida que a câmera fechasse em Sergio, mais eu veria
nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do meu pai. Seria do
pai sua maneira de pitar o cigarro retraindo os lábios e de atirar longe a
bituca com um peteleco”. Aquele que lhe revela seu próprio rosto.
Um livro sobre
livros, no qual os acontecimentos se dão entre os livros, em torno deles. Em O irmão alemão, os livros compõem o
cenário e forjam as relações, ocupam e demarcam territórios. No quarto dos pais
de Ciccio, estavam Marx, Engels, Trótski e Gramsci. No de seu irmão Mino,
encontravam-se Calderón de La Barca e Cervantes. Os livros suscitam perguntas e
propõem enigmas, dão pistas e índices. Entre as páginas de O ramo de ouro, numa edição inglesa de 1922, Francisco encontra um
bilhete de Anne endereçado a seu pai e desperta para a real possibilidade de um
irmão.
Os livros materializam
o saber, que não é só de conteúdo, mas de ordenação. A Assunta cabe preservar
os espaços, pois só ela tem livre acesso a todos eles, fazendo a necessária
mediação. É Assunta quem arruma os livros; só ela sabe recolocá-los, ordenando
o caos deixado por Sérgio. O conhecimento dos livros confere poder. Ao menos é
que espera Francisco: “Gabola, gabarola, cabotino, meus colegas não me
perdoavam por ostentar os livros autografados do meu pai nos corredores da
faculdade de letras.”
Ao contar sua história (o que
houve e o que não houve, mas poderia haver), Francisco foi franco. Quem quiser que conte outra.
HOLANDA, C. B. O irmão
alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
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