Jesus Cristo bebia cerveja
Ainda não conhecia Afonso Cruz
quando deparei seu surpreendente Jesus
Cristo bebia cerveja. No meio dos recém-chegados, lá estava ele, com
seu título inusitado. Separei-o e esperei até que pudesse lê-lo.
A orelha me forneceu informações
sobre a original história, mas não permitiu antecipar a razão do título. Só me
disse que se tratava da história de Rosa e do seu plano para ajudar sua avó a
realizar seu sonho: conhecer Jerusalém.
Jesus Cristo bebia cerveja é, sem dúvida, uma obra singular,
com uma linguagem bastante próxima da cinematográfica, que Cruz tão bem domina
– além de escritor e ilustrador, ele é cineasta. Nada parece menos alentejano
do que um romance em que as personagens se envolvem na criação de uma encenação
– identificando locações, roteirizando, selecionando o elenco, construindo
cenários e participando do espetáculo. Nada menos alentejano que um romance
narrado no presente, em que o pretérito é o tempo da memória.
Muitas vezes, ao ler um livro,
gosto de me perceber ingênua, a cair nas armadilhas do texto. Achei, então,
muito bonito ler cada página à procura da explicação do título. Quem nunca? E,
afinal, Jesus Cristo bebia cerveja mesmo. Isto, sim, parece bem alentejano.
CRUZ,
Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
Cartas a um jovem cientista
Cartas a um jovem cientista é um conjunto de vinte textos dirigidos
a jovens que estão por se iniciar ou há pouco se iniciaram na atividade
científica. Nesses textos, que Edward Wilson denomina “cartas”, pois não têm,
como ele diz, “nem a forma nem o tom tradicionais”, encontramos seus
pensamentos sobre o que é necessário conhecer e fazer para construir uma
trajetória no campo da ciência e da pesquisa. Essas reflexões são ilustradas
por exemplos das vidas de grandes nomes da ciência, mas, sobretudo, por casos
por ele protagonizados – as histórias de suas dúvidas, conquistas e fracassos.
Com objetividade e franqueza, de
uma forma bastante pessoal, Wilson ajuda os que desejam ingressar na atividade
científica a desconstruir alguns mitos. Afirma claramente que ninguém deixa de
ser cientista por ter limitado conhecimento de matemática. E conta um segredo:
que muitos dos mais bem-sucedidos cientistas do mundo não têm qualquer fluência
nessa linguagem.
A genialidade é outra das lendas
que o livro desmonta. Conforme o autor, dois dos mais notáveis vencedores do
Nobel têm, como ele, Wilson, um QI de pouco mais de 120. Estima-se, acrescenta
ele, que o de Darwin terá sido algo em torno de 130. Um bom cientista deve ser,
nas suas palavras, “brilhante o suficiente para ver o que pode ser feito, mas
não tão brilhante a ponto de ficar entediado ao fazê-lo”.
Fantasia, por outro lado, deve
ser a marca do homem de ciência. Para Wilson, “o cientista ideal pensa como um
poeta”. E destaca a importância da estrutura do pensamento narrativo no
processo de construção do conhecimento científico. Nessa perspectiva, realizar
uma pesquisa implica imaginar uma história, cujo fecho, espera-se, será a descoberta.
Para os estudantes de ensino
médio ou graduandos brasileiros que desejam ser cientistas, assim como para as
pessoas que os orientam e apoiam em suas escolhas – familiares e educadores,
quase sempre - Cartas a um jovem
cientista traz, sem dúvida, uma abordagem interessante. Mas é preciso
lembrar que a questão envolve outros desafios – e a exiguidade dos recursos
destinados à pesquisa e à formação científica em nosso país é apenas um, mas,
certamente, não o menor deles.
WILSON,
Edward O. Cartas a um jovem cientista.
São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Criação: A origem da vida / O futuro da vida.
Adam Rutherford, o autor de Criação: A origem da vida / O futuro da vida,
é um geneticista inglês, famoso por escrever e realizar documentários sobre
biologia para a TV. Seu livro foi lançado em 2013 e considerado, pela crítica,
uma excelente obra de divulgação científica.
A obra Criação é constituída de duas partes – A origem da vida e O futuro
da vida – que são absolutamente complementares, mas podem ser lidas
separadamente. Cada uma delas inicia a obra: o livro não tem quarta capa, mas uma
outra capa, de cabeça para baixo. Com isso, o leitor tem, necessariamente, de
escolher um caminho, que pode ser o da origem, o do futuro, ou outro qualquer,
que ele mesmo, o leitor, queira organizar.
A linguagem é relativamente
fácil. Rutherford emprega, sempre que possível, os termos científicos mais
simples. Em vários momentos, vale-se de
metáforas didáticas para explicar diferentes fenômenos e processos. Esses
recursos, sempre tão questionados, ele os emprega com grande propriedade e – o
que é fundamental – com parcimônia.
A obra não tem ilustrações.
Faltam os esquemas, as gravuras, as fotografias, que são, tradicionalmente,
grandes facilitadores da leitura
compreensiva de materiais didáticos ou de
divulgação científica. Assim, para “enxergar” as estruturas do DNA e do RNA,
por exemplo, o leitor conta apenas com o seu conhecimento prévio em biologia, o
qual lhe permite forjar imagens na própria mente. Por outro lado, o livro se
vale da dramaticidade – elemento essencial, penso eu, à narração dos grandes
fatos primordiais. E é em todo o seu aspecto dramático que o nascimento da
Terra é apresentado: a “criação de ordem a partir do caos do sistema solar
primitivo”.
RUTHERFORD, Adam. Criação:
A origem da vida / O futuro da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
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