quarta-feira, 3 de junho de 2015

Curtinhas II



Jesus Cristo bebia cerveja

Ainda não conhecia Afonso Cruz quando deparei seu surpreendente Jesus Cristo bebia cerveja. No meio dos recém-chegados, lá estava ele, com seu título inusitado. Separei-o e esperei até que pudesse lê-lo.

A orelha me forneceu informações sobre a original história, mas não permitiu antecipar a razão do título. Só me disse que se tratava da história de Rosa e do seu plano para ajudar sua avó a realizar seu sonho: conhecer Jerusalém.

Jesus Cristo bebia cerveja é, sem dúvida, uma obra singular, com uma linguagem bastante próxima da cinematográfica, que Cruz tão bem domina – além de escritor e ilustrador, ele é cineasta. Nada parece menos alentejano do que um romance em que as personagens se envolvem na criação de uma encenação – identificando locações, roteirizando, selecionando o elenco, construindo cenários e participando do espetáculo. Nada menos alentejano que um romance narrado no presente, em que o pretérito é o tempo da memória.

Muitas vezes, ao ler um livro, gosto de me perceber ingênua, a cair nas armadilhas do texto. Achei, então, muito bonito ler cada página à procura da explicação do título. Quem nunca? E, afinal, Jesus Cristo bebia cerveja mesmo. Isto, sim, parece bem alentejano.

CRUZ, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.


Cartas a um jovem cientista

Cartas a um jovem cientista é um conjunto de vinte textos dirigidos a jovens que estão por se iniciar ou há pouco se iniciaram na atividade científica. Nesses textos, que Edward Wilson denomina “cartas”, pois não têm, como ele diz, “nem a forma nem o tom tradicionais”, encontramos seus pensamentos sobre o que é necessário conhecer e fazer para construir uma trajetória no campo da ciência e da pesquisa. Essas reflexões são ilustradas por exemplos das vidas de grandes nomes da ciência, mas, sobretudo, por casos por ele protagonizados – as histórias de suas dúvidas, conquistas e fracassos.

Com objetividade e franqueza, de uma forma bastante pessoal, Wilson ajuda os que desejam ingressar na atividade científica a desconstruir alguns mitos. Afirma claramente que ninguém deixa de ser cientista por ter limitado conhecimento de matemática. E conta um segredo: que muitos dos mais bem-sucedidos cientistas do mundo não têm qualquer fluência nessa linguagem.

A genialidade é outra das lendas que o livro desmonta. Conforme o autor, dois dos mais notáveis vencedores do Nobel têm, como ele, Wilson, um QI de pouco mais de 120. Estima-se, acrescenta ele, que o de Darwin terá sido algo em torno de 130. Um bom cientista deve ser, nas suas palavras, “brilhante o suficiente para ver o que pode ser feito, mas não tão brilhante a ponto de ficar entediado ao fazê-lo”.

Fantasia, por outro lado, deve ser a marca do homem de ciência. Para Wilson, “o cientista ideal pensa como um poeta”. E destaca a importância da estrutura do pensamento narrativo no processo de construção do conhecimento científico. Nessa perspectiva, realizar uma pesquisa implica imaginar uma história, cujo fecho, espera-se, será a descoberta.

Para os estudantes de ensino médio ou graduandos brasileiros que desejam ser cientistas, assim como para as pessoas que os orientam e apoiam em suas escolhas – familiares e educadores, quase sempre - Cartas a um jovem cientista traz, sem dúvida, uma abordagem interessante. Mas é preciso lembrar que a questão envolve outros desafios – e a exiguidade dos recursos destinados à pesquisa e à formação científica em nosso país é apenas um, mas, certamente, não o menor deles.

WILSON, Edward O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


Criação: A origem da vida / O futuro da vida.

Adam Rutherford, o autor de Criação: A origem da vida / O futuro da vida, é um geneticista inglês, famoso por escrever e realizar documentários sobre biologia para a TV. Seu livro foi lançado em 2013 e considerado, pela crítica, uma excelente obra de divulgação científica.

A obra Criação é constituída de duas partes – A origem da vida e O futuro da vida – que são absolutamente complementares, mas podem ser lidas separadamente. Cada uma delas inicia a obra: o livro não tem quarta capa, mas uma outra capa, de cabeça para baixo. Com isso, o leitor tem, necessariamente, de escolher um caminho, que pode ser o da origem, o do futuro, ou outro qualquer, que ele mesmo, o leitor, queira organizar.

A linguagem é relativamente fácil. Rutherford emprega, sempre que possível, os termos científicos mais simples.  Em vários momentos, vale-se de metáforas didáticas para explicar diferentes fenômenos e processos. Esses recursos, sempre tão questionados, ele os emprega com grande propriedade e – o que é fundamental – com parcimônia.

A obra não tem ilustrações. Faltam os esquemas, as gravuras, as fotografias, que são, tradicionalmente, grandes facilitadores da leitura compreensiva de materiais didáticos ou de divulgação científica. Assim, para “enxergar” as estruturas do DNA e do RNA, por exemplo, o leitor conta apenas com o seu conhecimento prévio em biologia, o qual lhe permite forjar imagens na própria mente. Por outro lado, o livro se vale da dramaticidade – elemento essencial, penso eu, à narração dos grandes fatos primordiais. E é em todo o seu aspecto dramático que o nascimento da Terra é apresentado: a “criação de ordem a partir do caos do sistema solar primitivo”.


RUTHERFORD, Adam. Criação: A origem da vida / O futuro da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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