Quase todos os homens e
mulheres são forçados a desempenhar papéis para os quais não têm a menor
propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.
Oscar
Wilde
A Quadrienal de Praga, considerada o maior evento na área da
cenografia no mundo, apresenta, nestes dias - de 17 a 28 de junho - sua 13ª edição. Participam
68 países com trabalhos de diferentes gêneros do design e da performance
– figurinos, palco, iluminação, sonoplastia, e arquitetura teatral para dança,
ópera, teatro, site specific, performances multidiáticas e artes performáticas,
etc.
O Brasil expõe, desta vez, as
obras de 29 artistas. Entre eles, o
livro de Samuel Abrantes, Samile
Cunha transconexões memória e heterodoxia. Samuel Abrantes é figurinista de
teatro, professor de Indumentária na UFRJ, criador de fantasias carnavalescas e
autor dos livros Sobre os signos de Omolu,
Heróis e bufões: o figurino encena e Poética têxtil: figurinos, memórias e
texturas, que abrangem e documentam 20 anos de sua formação e atuação
profissional. No novo livro, o professor nos fala de Samile Embaixatriz Cunha,
personagem por ele criada no período 2003-2004, momento em que se afastava da
atividade teatral e se encaminhava para o doutorado.
Desde que pela primeira vez tomei contato com o livro,
algum tempo antes do lançamento, em 2014, impressionou-me a profundidade e a
beleza do texto. De imediato, reconheci a combinação de elementos de narrativa
e ensaio, já anunciada nas obras anteriores de Samuel; aos poucos, porém,
percebi a engenhosidade do novo arranjo, que torna esta obra mais contundente.
Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia nos proporciona
todas as emoções de uma boa história em que o narrador expõe seus conflitos e
contradições: de um lado, a certeza de
uma crise significativa daquilo que parecia natural – o masculino – e, por
outro, a instauração de um sistema de novos signos gerenciador de sentidos,
baseado na liberdade criativa, no bom humor, no burlesco e na ironia – o
transformista. O livro nos
conta do surgimento da personagem e do caminho percorrido para compor a sua
“sintaxe visual”: Inicialmente, o
figurino de Samile era assinalado pelo exagero, pela suntuosidade dos penteados e dos bordados. Confirmava a produção de valor pela função
exterior e conferia à aparência o poder de seduzir, pelo traje e excesso de
maquiagem.
À medida que a leitura avança,
vemos Samile ganhar forma e espaço na vida social. Cada vez mais, é ela quem se
apresenta e comparece às reuniões. Ela
possui um encantamento vulnerável e incorpora o sentido de transcendência de
suas ações, na arbitrariedade das regras e na libertação do cerimonial que
algumas situações configuram. Enquanto o tímido professor assiste perplexo
às suas negaças e testemunha seus ardis, Samile impõe-se com delicada firmeza e
mostra a que veio. Para ela são os aplausos, as flores e todos os cliques.
Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia, por outro lado –
e sobretudo –, propõe um pensar sobre o
ato de ruptura que permitiu a Samuel engendrar Samile. Para fomentar essa
reflexão, opera com dicotomias/oposições. À construção do corpo pelo figurino contrapõe-se a manifestação da
persona pela make. Ao rigor da
prática acadêmica, a transgressão da performance. Ao vestir-se da transformista,
o despir-se do artista.
Rico em imagens, como, de resto, outros livros seus, este
exige um olhar mais sensível e arguto. Desfilando diante de nossos olhos, é a
rainha embaixatriz que nos observa, perscrutando nossas reações e sensações. A
mim, o livro surpreendeu-me pela ousadia e aguçou-me
a esperança. Se há Samile, então a intolerância vai perder a guerra.
ABRANTES, Samuel. Samile
Cunha transconexões memória e heterodoxia. Rio de Janeiro: RIO Book’s,
2014.