quarta-feira, 24 de junho de 2015

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia


Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis para os quais não têm a menor propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.
                                           Oscar Wilde

A Quadrienal de Praga, considerada o maior evento na área da cenografia no mundo, apresenta, nestes dias - de 17 a 28 de junho - sua 13ª edição. Participam 68 países com trabalhos de diferentes gêneros do design e da performance – figurinos, palco, iluminação, sonoplastia, e arquitetura teatral para dança, ópera, teatro, site specific, performances multidiáticas e artes performáticas, etc.

O Brasil expõe, desta vez, as obras de 29 artistas. Entre eles, o livro de Samuel Abrantes, Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia. Samuel Abrantes é figurinista de teatro, professor de Indumentária na UFRJ, criador de fantasias carnavalescas e autor dos livros Sobre os signos de Omolu, Heróis e bufões: o figurino encena e Poética têxtil: figurinos, memórias e texturas, que abrangem e documentam 20 anos de sua formação e atuação profissional. No novo livro, o professor nos fala de Samile Embaixatriz Cunha, personagem por ele criada no período 2003-2004, momento em que se afastava da atividade teatral e se encaminhava para o doutorado.  

Desde que pela primeira vez tomei contato com o livro, algum tempo antes do lançamento, em 2014, impressionou-me a profundidade e a beleza do texto. De imediato, reconheci a combinação de elementos de narrativa e ensaio, já anunciada nas obras anteriores de Samuel; aos poucos, porém, percebi a engenhosidade do novo arranjo, que torna esta obra mais contundente.

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia nos proporciona todas as emoções de uma boa história em que o narrador expõe seus conflitos e contradições: de um lado, a certeza de uma crise significativa daquilo que parecia natural – o masculino – e, por outro, a instauração de um sistema de novos signos gerenciador de sentidos, baseado na liberdade criativa, no bom humor, no burlesco e na ironia – o transformista. O livro nos conta do surgimento da personagem e do caminho percorrido para compor a sua “sintaxe visual”: Inicialmente, o figurino de Samile era assinalado pelo exagero, pela suntuosidade dos penteados e dos bordados. Confirmava a produção de valor pela função exterior e conferia à aparência o poder de seduzir, pelo traje e excesso de maquiagem.

À medida que a leitura avança, vemos Samile ganhar forma e espaço na vida social. Cada vez mais, é ela quem se apresenta e comparece às reuniões. Ela possui um encantamento vulnerável e incorpora o sentido de transcendência de suas ações, na arbitrariedade das regras e na libertação do cerimonial que algumas situações configuram.  Enquanto o tímido professor assiste perplexo às suas negaças e testemunha seus ardis, Samile impõe-se com delicada firmeza e mostra a que veio. Para ela são os aplausos, as flores e todos os cliques.

Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia, por outro lado – e sobretudo –,  propõe um pensar sobre o ato de ruptura que permitiu a Samuel engendrar Samile. Para fomentar essa reflexão, opera com dicotomias/oposições. À construção do corpo pelo figurino contrapõe-se a manifestação da persona pela make. Ao rigor da prática acadêmica, a transgressão da performance. Ao vestir-se da transformista, o despir-se do artista.

Rico em imagens, como, de resto, outros livros seus, este exige um olhar mais sensível e arguto. Desfilando diante de nossos olhos, é a rainha embaixatriz que nos observa, perscrutando nossas reações e sensações. A mim, o livro surpreendeu-me pela ousadia e aguçou-me a esperança. Se há Samile, então a intolerância vai perder a guerra.


ABRANTES, Samuel. Samile Cunha transconexões memória e heterodoxia. Rio de Janeiro: RIO Book’s, 2014.

terça-feira, 16 de junho de 2015

O irmão alemão

Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organizações e coisas práticas, os nossos homens de ideias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 163.

Quanto de realidade encontramos no texto ficcional? Quanto do narrador é o autor? Admite-se facilmente a presença de Machado de Assis no Conselheiro Aires, mas teme-se reconhecê-la em Brás Cubas. Vejam só, logo o Brás, que, como seu artífice, não transmitiu a ninguém o legado da miséria humana. É bom que o velho bruxo esteja na figura do digno, do sábio Aires, mas como aceitá-lo na do falso, mesquinho, ignóbil Cubas? Quanto de Machado há em cada um dos dois? Ou em Bentinho?

Questões semelhantes são levantadas pela leitura de O irmão alemão. Em tempos bicudos, quando se autorizam as biografias até então não autorizadas, malandro (de ópera) é Chico Buarque, que criou uma obra de ficção partindo de sua história de vida. A experiência não é nova em literatura, mas nem sempre é tão claramente assumida. Se a trama central – a descoberta e a investigação do irmão alemão – não é a fiel reprodução de fatos verídicos, certamente neles se fundamenta, como atestam os documentos apresentados na obra.

Decididamente, O irmão alemão não conta a vida do seu autor.  Vê-se logo que Assunta não é Maria Amélia. E que Ciccio não é Chico. Não cursa arquitetura, não é compositor e não se casa. Além disso, tem apenas um irmão – Domingos, o Mino. Isso não impede, porém, que o livro recrie a história de Chico.  A autenticidade da relação pai-filho é estabelecida pelo uso dos nomes Sérgio e Francisco. Com tudo para ser uma autobiografia, O irmão alemão abre mão de sê-lo. E se inscreve como um romance sobre irmãos e sobre livros.

Um livro sobre irmãos, no qual a experiência da fraternidade é vivida em diferentes dimensões – da dominicana à franciscana. No livro de Chico Buarque, irmão é o concorrente. Aquele que disputa e coopera. É Mino, que suscita em Ciccio ciúme, inveja e emulação. A outra face da mesma moeda. “Só quem frequentasse muito a nossa casa, ou estudasse uma rara foto da família reunida, notaria que nós dois não somos propriamente opostos, e sim complementares.” Aquele que lhe permite identificar-se como “o irmão de meu irmão”.

Irmão é também o aliado. Aquele que partilha e pactua. É Ariosto, seu parceiro e cúmplice de pequenos crimes. “Nós éramos unha e carne desde o jardim de infância, onde ele me emprestava bolas de gude, comia a goiabada da minha merenda e se chamava Pernalonga.” Aquele que o faz definir-se como amigo.

Irmão é, sobretudo, o outro. Aquele que se quer conhecer, mas que permanece desconhecido. É Sérgio, que Ciccio buscava e jamais encontraria. “Mas à medida que a câmera fechasse em Sergio, mais eu veria nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do meu pai. Seria do pai sua maneira de pitar o cigarro retraindo os lábios e de atirar longe a bituca com um peteleco”. Aquele que lhe revela seu próprio rosto.

Um livro sobre livros, no qual os acontecimentos se dão entre os livros, em torno deles. Em O irmão alemão, os livros compõem o cenário e forjam as relações, ocupam e demarcam territórios. No quarto dos pais de Ciccio, estavam Marx, Engels, Trótski e Gramsci. No de seu irmão Mino, encontravam-se Calderón de La Barca e Cervantes. Os livros suscitam perguntas e propõem enigmas, dão pistas e índices. Entre as páginas de O ramo de ouro, numa edição inglesa de 1922, Francisco encontra um bilhete de Anne endereçado a seu pai e desperta para a real possibilidade de um irmão.

Os livros materializam o saber, que não é só de conteúdo, mas de ordenação. A Assunta cabe preservar os espaços, pois só ela tem livre acesso a todos eles, fazendo a necessária mediação. É Assunta quem arruma os livros; só ela sabe recolocá-los, ordenando o caos deixado por Sérgio. O conhecimento dos livros confere poder. Ao menos é que espera Francisco: “Gabola, gabarola, cabotino, meus colegas não me perdoavam por ostentar os livros autografados do meu pai nos corredores da faculdade de letras.”

Ao contar sua história (o que houve e o que não houve, mas poderia haver), Francisco  foi franco. Quem quiser que conte outra.

HOLANDA, C. B. O irmão alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.





quarta-feira, 3 de junho de 2015

Curtinhas II



Jesus Cristo bebia cerveja

Ainda não conhecia Afonso Cruz quando deparei seu surpreendente Jesus Cristo bebia cerveja. No meio dos recém-chegados, lá estava ele, com seu título inusitado. Separei-o e esperei até que pudesse lê-lo.

A orelha me forneceu informações sobre a original história, mas não permitiu antecipar a razão do título. Só me disse que se tratava da história de Rosa e do seu plano para ajudar sua avó a realizar seu sonho: conhecer Jerusalém.

Jesus Cristo bebia cerveja é, sem dúvida, uma obra singular, com uma linguagem bastante próxima da cinematográfica, que Cruz tão bem domina – além de escritor e ilustrador, ele é cineasta. Nada parece menos alentejano do que um romance em que as personagens se envolvem na criação de uma encenação – identificando locações, roteirizando, selecionando o elenco, construindo cenários e participando do espetáculo. Nada menos alentejano que um romance narrado no presente, em que o pretérito é o tempo da memória.

Muitas vezes, ao ler um livro, gosto de me perceber ingênua, a cair nas armadilhas do texto. Achei, então, muito bonito ler cada página à procura da explicação do título. Quem nunca? E, afinal, Jesus Cristo bebia cerveja mesmo. Isto, sim, parece bem alentejano.

CRUZ, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.


Cartas a um jovem cientista

Cartas a um jovem cientista é um conjunto de vinte textos dirigidos a jovens que estão por se iniciar ou há pouco se iniciaram na atividade científica. Nesses textos, que Edward Wilson denomina “cartas”, pois não têm, como ele diz, “nem a forma nem o tom tradicionais”, encontramos seus pensamentos sobre o que é necessário conhecer e fazer para construir uma trajetória no campo da ciência e da pesquisa. Essas reflexões são ilustradas por exemplos das vidas de grandes nomes da ciência, mas, sobretudo, por casos por ele protagonizados – as histórias de suas dúvidas, conquistas e fracassos.

Com objetividade e franqueza, de uma forma bastante pessoal, Wilson ajuda os que desejam ingressar na atividade científica a desconstruir alguns mitos. Afirma claramente que ninguém deixa de ser cientista por ter limitado conhecimento de matemática. E conta um segredo: que muitos dos mais bem-sucedidos cientistas do mundo não têm qualquer fluência nessa linguagem.

A genialidade é outra das lendas que o livro desmonta. Conforme o autor, dois dos mais notáveis vencedores do Nobel têm, como ele, Wilson, um QI de pouco mais de 120. Estima-se, acrescenta ele, que o de Darwin terá sido algo em torno de 130. Um bom cientista deve ser, nas suas palavras, “brilhante o suficiente para ver o que pode ser feito, mas não tão brilhante a ponto de ficar entediado ao fazê-lo”.

Fantasia, por outro lado, deve ser a marca do homem de ciência. Para Wilson, “o cientista ideal pensa como um poeta”. E destaca a importância da estrutura do pensamento narrativo no processo de construção do conhecimento científico. Nessa perspectiva, realizar uma pesquisa implica imaginar uma história, cujo fecho, espera-se, será a descoberta.

Para os estudantes de ensino médio ou graduandos brasileiros que desejam ser cientistas, assim como para as pessoas que os orientam e apoiam em suas escolhas – familiares e educadores, quase sempre - Cartas a um jovem cientista traz, sem dúvida, uma abordagem interessante. Mas é preciso lembrar que a questão envolve outros desafios – e a exiguidade dos recursos destinados à pesquisa e à formação científica em nosso país é apenas um, mas, certamente, não o menor deles.

WILSON, Edward O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


Criação: A origem da vida / O futuro da vida.

Adam Rutherford, o autor de Criação: A origem da vida / O futuro da vida, é um geneticista inglês, famoso por escrever e realizar documentários sobre biologia para a TV. Seu livro foi lançado em 2013 e considerado, pela crítica, uma excelente obra de divulgação científica.

A obra Criação é constituída de duas partes – A origem da vida e O futuro da vida – que são absolutamente complementares, mas podem ser lidas separadamente. Cada uma delas inicia a obra: o livro não tem quarta capa, mas uma outra capa, de cabeça para baixo. Com isso, o leitor tem, necessariamente, de escolher um caminho, que pode ser o da origem, o do futuro, ou outro qualquer, que ele mesmo, o leitor, queira organizar.

A linguagem é relativamente fácil. Rutherford emprega, sempre que possível, os termos científicos mais simples.  Em vários momentos, vale-se de metáforas didáticas para explicar diferentes fenômenos e processos. Esses recursos, sempre tão questionados, ele os emprega com grande propriedade e – o que é fundamental – com parcimônia.

A obra não tem ilustrações. Faltam os esquemas, as gravuras, as fotografias, que são, tradicionalmente, grandes facilitadores da leitura compreensiva de materiais didáticos ou de divulgação científica. Assim, para “enxergar” as estruturas do DNA e do RNA, por exemplo, o leitor conta apenas com o seu conhecimento prévio em biologia, o qual lhe permite forjar imagens na própria mente. Por outro lado, o livro se vale da dramaticidade – elemento essencial, penso eu, à narração dos grandes fatos primordiais. E é em todo o seu aspecto dramático que o nascimento da Terra é apresentado: a “criação de ordem a partir do caos do sistema solar primitivo”.


RUTHERFORD, Adam. Criação: A origem da vida / O futuro da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.