(...) fazer do leitor um cúmplice, um
companheiro de viagem. Simultaneizá-lo, visto que a leitura abolirá o tempo do
leitor e o transportará para o tempo do autor.
Julio
Cortázar, em O jogo da amarelinha
Este é um tempo de (auto)biografias.
Algumas interessantes, outras nem tanto. Contar a história de uma (pior ainda,
a própria) vida não é tão simples como parece, especialmente quando se pretende
mostrar com clareza em que contextos se deram os fatos narrados, mas sem perder
a leveza jamais.
Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo, de Cacá
Diegues, enfrenta esse desafio de modo bastante peculiar. A obra é estruturada
em centenas de minicapítulos, pequenas unidades que se apresentam agrupadas em
sete grandes partes, na verdade sete períodos da vida do cineasta. Como ele explica
no seu “Prefacinho”, trata-se de “uma espécie de almanaque, em que, se você
quiser, pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas.”
Cá entre nós, suspeito que, ao
oferecer a possibilidade de remontagem de sua obra, todo autor sorri secreta e
complacentemente, certo de que seus leitores adotarão o modo tradicional de
leitura, indo em linha reta, sem pular nada, da página inicial à última. Lembro-me
de, no meu primeiro contato com O jogo da
amarelinha, de Julio Cortázar, há mais de quarenta anos, ter pensado em
fazer a leitura não linear sugerida pelo autor. Acabei por escolher a leitura
longa, que, acredito, deu-me a visão do todo - uma das minhas obsessões. A
mesma opção fiz agora com o livro de Cacá.
No gênero autobiografia estão em
jogo a construção da identidade e a discussão da verdade. O eu
da autobiografia enreda-se: explica-se, expõe-se à investigação do leitor, arrisca-se
a ficar desacreditado. Em alguns momentos de Vida de cinema, o autor parece cair na armadilha de justificar seus
atos e melhorar a própria imagem. Sente-se obrigado a dar sua própria versão de
fatos que teriam merecido outras, inverídicas. Suas atitudes e posicionamentos
nem sempre foram corretamente interpretados, é o que alega. Nessas horas,
tendemos a distanciar-nos e a sopesar cada palavra que ele diz. São mais
numerosas, porém, as passagens em que, com surpreendente sinceridade e
despudor, admite erros, confessa fraquezas e assume incoerências. É quando nos
persuade e alicia.
A narrativa propriamente dita de Vida de cinema se encerra na sétima parte
do livro, com os acontecimentos datados de 1995. No “Posfácio provisório”, o autor
enumera os principais fatos subsequentes e tece considerações sobre sua história. Uma
delas é “Tentei sempre ser cúmplice de meu tempo”, com a qual sintetiza a coerência,
o compromisso e a criticidade que imprimiu a sua trajetória.
Vida de cinema. Vida ou cinema? Se
o livro fosse transformado em roteiro e a vida em filme, eu gostaria de ver o
diretor em sua cadeira, lutando para finalizar a obra. Para anteceder os créditos,
ele poderia escolher uma frase que se encontra lá atrás: “A vida é mais importante que o cinema. Mas
a vantagem do cinema é que, no filme, há a possibilidade de cortes, elipses,
alternativas para eliminar o dispensável, enquanto a vida é feita de um único e
interminável plano sequência linear, um só travelling
cheio de excessivos tempos mortos.”
DIEGUES, C. Vida de cinema: antes, durante e depois do
Cinema Novo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
Um recomeço da leitura. Um novo começo? O novo me espera.
ResponderExcluirObrigado Sandra.
Mas confesso que ler linearmente, do início ao fim, será minha prioridade. Sem idas e vindas. Sem começar pelo fim.
Quero ler, e quero continuar lendo Sandra! Vida longa ao Belas Letras!
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