quarta-feira, 4 de março de 2015

Vida de cinema


(...) fazer do leitor um cúmplice, um companheiro de viagem. Simultaneizá-lo, visto que a leitura abolirá o tempo do leitor e o transportará para o tempo do autor.
    Julio Cortázar, em O jogo da amarelinha

Este é um tempo de (auto)biografias. Algumas interessantes, outras nem tanto. Contar a história de uma (pior ainda, a própria) vida não é tão simples como parece, especialmente quando se pretende mostrar com clareza em que contextos se deram os fatos narrados, mas sem perder a leveza jamais.

Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo, de Cacá Diegues, enfrenta esse desafio de modo bastante peculiar. A obra é estruturada em centenas de minicapítulos, pequenas unidades que se apresentam agrupadas em sete grandes partes, na verdade sete períodos da vida do cineasta. Como ele explica no seu “Prefacinho”, trata-se de “uma espécie de almanaque, em que, se você quiser, pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas.”

Cá entre nós, suspeito que, ao oferecer a possibilidade de remontagem de sua obra, todo autor sorri secreta e complacentemente, certo de que seus leitores adotarão o modo tradicional de leitura, indo em linha reta, sem pular nada, da página inicial à última. Lembro-me de, no meu primeiro contato com O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, há mais de quarenta anos, ter pensado em fazer a leitura não linear sugerida pelo autor. Acabei por escolher a leitura longa, que, acredito, deu-me a visão do todo - uma das minhas obsessões. A mesma opção fiz agora com o livro de Cacá.

No gênero autobiografia estão em jogo a construção da identidade e a discussão da verdade. O eu da autobiografia enreda-se: explica-se, expõe-se à investigação do leitor, arrisca-se a ficar desacreditado. Em alguns momentos de Vida de cinema, o autor parece cair na armadilha de justificar seus atos e melhorar a própria imagem. Sente-se obrigado a dar sua própria versão de fatos que teriam merecido outras, inverídicas. Suas atitudes e posicionamentos nem sempre foram corretamente interpretados, é o que alega. Nessas horas, tendemos a distanciar-nos e a sopesar cada palavra que ele diz. São mais numerosas, porém, as passagens em que, com surpreendente sinceridade e despudor, admite erros, confessa fraquezas e assume incoerências. É quando nos persuade e alicia.

A narrativa propriamente dita de Vida de cinema se encerra na sétima parte do livro, com os acontecimentos datados de 1995. No “Posfácio provisório”, o autor enumera os principais fatos subsequentes e tece considerações sobre sua história. Uma delas é “Tentei sempre ser cúmplice de meu tempo”, com a qual sintetiza a coerência, o compromisso e a criticidade que imprimiu a sua trajetória.
 
Vida de cinema. Vida ou cinema? Se o livro fosse transformado em roteiro e a vida em filme, eu gostaria de ver o diretor em sua cadeira, lutando para finalizar a obra. Para anteceder os créditos, ele poderia escolher uma frase que se encontra lá atrás: “A vida é mais importante que o cinema. Mas a vantagem do cinema é que, no filme, há a possibilidade de cortes, elipses, alternativas para eliminar o dispensável, enquanto a vida é feita de um único e interminável plano sequência linear, um só travelling cheio de excessivos tempos mortos.”


DIEGUES, C. Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 

2 comentários:

  1. Um recomeço da leitura. Um novo começo? O novo me espera.
    Obrigado Sandra.
    Mas confesso que ler linearmente, do início ao fim, será minha prioridade. Sem idas e vindas. Sem começar pelo fim.

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  2. Quero ler, e quero continuar lendo Sandra! Vida longa ao Belas Letras!

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