O autor em seu livro deve ser como Deus em seu universo:
presente em toda parte e visível em nenhuma.
Gustave Flaubert
Foi na adolescência que adquiri o
perigoso hábito. Houve um período em que o cinema mais próximo oferecia uma
programação de dois ou três filmes “de arte” (como os chamávamos à época) do
mesmo diretor. No início, eu ia com colegas de escola, jovens cinéfilos como
eu. Aos poucos, porém, a necessidade aumentou e eu não podia esperar pelos
outros. Dois ou três filmes (seguidos) de Bergman! Ou de Buñuel, ou de Godard...
Entre as duas doses, algo para acelerar o efeito: algumas páginas de um livro.
De lá para cá, a associação literatura-cinema
só ganhou força na minha cabeça. Diferentemente de outras pessoas que não
suportam assistir a adaptações de romances para a tela (algumas são mesmo
horríveis...), eu não resisto a “casar” as duas histórias. O modo mais
frequente é, antes de ir ao cinema, começar a reler a obra. Quando já estou no
clima, interrompo a leitura e vou ao cinema. Retomo o livro no mesmo dia, às
vezes.
Vivo a experiência transficcional
de outras maneiras também. Foi assim que assisti ao filme As horas, de Stephen Daldry, uma adaptação do romance de Michael
Cunningham As horas, por sua vez uma
transposição de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. * Vi o
filme e depois reli o livro de Virginia Woolf, mas até hoje não me interessei
muito pelo de Cunningham.
No mês passado, fui assistir a Gemma Bovery, de Anne Fontaine. Trata-se
de uma adaptação da graphic novel homônima de
Posy Simmonds, que conta a história de uma jovem inglesa
recém-chegada a uma pequena cidade francesa.
Na visão do padeiro Martin Joubert, seu vizinho, Gemma é em tudo
semelhante à heroína de Flaubert. Joubert é um ex-livreiro e “lê” a história de
Gemma como uma fiel transcrição do romance Madame
Bovary, usando-o como chave para entender a mulher por quem está
apaixonado.
Há quem diga que o personagem
mais intrigante de Flaubert é ele mesmo. Ao sair do cinema e chegar a casa, eu só
queria continuar com ele. No meio dos livros por ler, encontrei o que
procurava: O papagaio de Flaubert, de
Julian Barnes, cujo narrador é, como Joubert, um leitor contumaz do mestre de Salambô. No seu caso, porém, a
necessidade de associar o real à ficção toma a forma de uma pesquisa, que
inclui visitas a locais onde viveu o artista, alguns esboços de organização cronológica
de fatos e impiedosas críticas ao trabalho dos críticos impiedosos. Todo esse trabalho
desordenadamente apaixonado – como soem ser todas as pesquisas - tem um profundo
impacto em sua própria vida.
Madame Bovary é obra fundadora da literatura universal. Ela retoma
questões já presentes em A mulher de
trinta anos, de Balzac, mas torna-se algo maior, a exigir respostas. Que
foram surgindo em outras obras. Bovary continua em Ana Karenina, de Tolstoi; em
Luísa, de Eça de Queirós; em Capitu, de Machado de Assis. Continua viva também
em Clarissa Dalloway – é bom lembrar que Woolf era uma grande leitora de
Flaubert.
É disso que se trata, afinal. De
como os livros nos ensinam a ler e escrever o mundo. E de como essa leitura é contínua.
A gente chega à última página, mas a ação de ler se perpetua na reelaboração
das imagens e na antecipação do que virá depois.
BARNES, Julien. O papagaio de Flaubert. Rio de Janeiro: Rocco,
1988.
WOOLF, Virginia. Mrs.
Dalloway. São Paulo: Boitempo, 2006.**
* Tanto o filme de Daldry como o
romance de Cunningham referem acontecimentos de um dia na vida de três mulheres
que, em épocas diferentes, guardam uma relação com o romance Mrs. Dalloway:
Virginia Woolf, a autora do livro; Laura Brown, a leitora; e Clarissa Vaughan, uma
editora que vive, nos dias atuais, experiências semelhantes às da
personagem-título.
**Em domínio público, o romance de Virginia Woolf está disponível
em vários endereços.