“Entretanto, eu estou
convencido de que se podia bem viajar
meses
inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se
todos os dias
alimento agradável para o espírito e o coração.”
Joaquim Manuel de Macedo, em
Joaquim Manuel de Macedo, em
Um passeio pela
cidade do Rio de Janeiro
Quando gosto muito de um livro, é
com dificuldade que interrompo a leitura. Carrego-o comigo para todos os
lugares (Sofro horrores relendo Grande
sertão: veredas!). Deixo-o sempre à
mão, mesmo quando estou diante do computador ou da tevê. Sabe-se lá, vai que dá
uma vontade incoercível de.
Quando gosto demais de um livro,
começo a lê-lo mais devagar a partir do meio. É quase sem perceber que isso
acontece. Se o livro é pequeno, “amarro” a leitura. Começo a retomar o que
ficou para trás, a registrar minhas impressões. Saboreio cada nova página com
lentidão, repisando, remoendo cada frase.
O fim de um livro maravilhoso é
algo que me deixa solitária. Mais do que isso, deixa-me ansiosa por uma
necessária solidão. Quando o livro maravilhoso termina, quero estar a sós
comigo mesma, refletir sobre o que ele me trouxe, o que ele fez comigo. Porque
livros maravilhosos fazem coisas com a gente.
Tudo isso senti com A primeira história do mundo, de Aberto
Mussa, quando pela primeira vez o li. E olha que não era neófita. Conhecia a
obra do autor, o que me permitia entender seu projeto de criar um “compêndio
mítico do Rio de Janeiro” em cinco novelas policiais, com tramas que atravessam
os cinco séculos de existência da cidade. Iniciado com O trono da rainha Jinga, esse compêndio narra, assim, a grande saga
da cidade do Rio de Janeiro, a verdadeira protagonista, pela via da
transgressão e da violência, pois, como nos diz o narrador de O senhor do lado esquerdo, o segundo volume
da série, “o que define uma cidade é a história de seus crimes”.
Não sou uma leitora ingênua. Já
me submeti a muitos dos secretos prazeres e perversões de ler. Ainda assim, fui
tocada, provocada por esse livro, herdeiro da melhor tradição de dois gêneros
de narrativa: o histórico e o policial. Com respeito ao primeiro, a obra de
Mussa transgride seus cânones ao combinar de forma desusada a pesquisa rigorosa
de mitos e fatos históricos com a invenção e a especulação. Quanto ao segundo, o
livro revisita os recursos tradicionalmente usados por mestres como Agatha
Christie. Não existe a tradicional figura do detetive, e os fatos, passados há
quase 500 anos, são investigados na época atual. O narrador compartilha pistas
e hipóteses com um leitor que se torna seu cúmplice e parceiro de investigação,
mas também se dirige a outro leitor – o indeciso, que folheia rapidamente o
livro, avaliando se deve adquiri-lo.
Das páginas de A primeira história do mundo emerge o
Rio de Janeiro do século XVI, com suas elevações e declives, seus caminhos e
edificações. Uma pequena vila cheia de lendas e mistérios. Trata-se da primeira
narrativa policial da cidade, mas também da primeira história do mundo porque,
na perspectiva mítica – tão verdadeira quanto a histórica, previne o autor –, a
Carioca, palco dos fatos narrados, não é somente o lugar de origem do Rio de
Janeiro, mas “onde surge a própria humanidade”.
Uma boa história, quando chega ao
fim, deixa uma falta, que às vezes é compensada pela lição que transmite. Um
ato de generosidade de quem a narra. A moral de A primeira história do mundo, diz e repete o narrador, é que em uma “cidade onde há mais
homens que mulheres, não pode haver virtude”. Levar comigo essa enigmática lição atenua a
ausência da fábula. Melhor do
que isso, porém, é saber que essa história não acaba aqui. Seu autor foi apenas um pouco além do meio dela. Já
nos mostrou o Rio quinhentista e seiscentista e nos envolveu nas tramas da
República Velha. O que nos reservam os séculos XVIII e XIX? Aguardo, paciente, o próximo volume da série,
que ainda não é. Essa ansiosa espera dá sentido a tudo ao redor. Especialmente
para gente, como eu, apaixonada pelos livros e pela mui leal e heroica cidade
de São Sebastião do Rio de Janeiro.
MUSSA, A. A primeira história do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2014.