segunda-feira, 30 de março de 2015

A primeira história do mundo


Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar
meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se
todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

Joaquim Manuel de Macedo, em
Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Quando gosto muito de um livro, é com dificuldade que interrompo a leitura. Carrego-o comigo para todos os lugares (Sofro horrores relendo Grande sertão: veredas!).  Deixo-o sempre à mão, mesmo quando estou diante do computador ou da tevê. Sabe-se lá, vai que dá uma vontade incoercível de.

Quando gosto demais de um livro, começo a lê-lo mais devagar a partir do meio. É quase sem perceber que isso acontece. Se o livro é pequeno, “amarro” a leitura. Começo a retomar o que ficou para trás, a registrar minhas impressões. Saboreio cada nova página com lentidão, repisando, remoendo cada frase.

O fim de um livro maravilhoso é algo que me deixa solitária. Mais do que isso, deixa-me ansiosa por uma necessária solidão. Quando o livro maravilhoso termina, quero estar a sós comigo mesma, refletir sobre o que ele me trouxe, o que ele fez comigo. Porque livros maravilhosos fazem coisas com a gente.

Tudo isso senti com A primeira história do mundo, de Aberto Mussa, quando pela primeira vez o li. E olha que não era neófita. Conhecia a obra do autor, o que me permitia entender seu projeto de criar um “compêndio mítico do Rio de Janeiro” em cinco novelas policiais, com tramas que atravessam os cinco séculos de existência da cidade. Iniciado com O trono da rainha Jinga, esse compêndio narra, assim, a grande saga da cidade do Rio de Janeiro, a verdadeira protagonista, pela via da transgressão e da violência, pois, como nos diz o narrador de O senhor do lado esquerdo, o segundo volume da série, “o que define uma cidade é a história de seus crimes”.

Não sou uma leitora ingênua. Já me submeti a muitos dos secretos prazeres e perversões de ler. Ainda assim, fui tocada, provocada por esse livro, herdeiro da melhor tradição de dois gêneros de narrativa: o histórico e o policial. Com respeito ao primeiro, a obra de Mussa transgride seus cânones ao combinar de forma desusada a pesquisa rigorosa de mitos e fatos históricos com a invenção e a especulação. Quanto ao segundo, o livro revisita os recursos tradicionalmente usados por mestres como Agatha Christie. Não existe a tradicional figura do detetive, e os fatos, passados há quase 500 anos, são investigados na época atual. O narrador compartilha pistas e hipóteses com um leitor que se torna seu cúmplice e parceiro de investigação, mas também se dirige a outro leitor – o indeciso, que folheia rapidamente o livro, avaliando se deve adquiri-lo.

Das páginas de A primeira história do mundo emerge o Rio de Janeiro do século XVI, com suas elevações e declives, seus caminhos e edificações. Uma pequena vila cheia de lendas e mistérios. Trata-se da primeira narrativa policial da cidade, mas também da primeira história do mundo porque, na perspectiva mítica – tão verdadeira quanto a histórica, previne o autor –, a Carioca, palco dos fatos narrados, não é somente o lugar de origem do Rio de Janeiro, mas “onde surge a própria humanidade”.  

Uma boa história, quando chega ao fim, deixa uma falta, que às vezes é compensada pela lição que transmite. Um ato de generosidade de quem a narra. A moral de A primeira história do mundo, diz e repete o narrador, é que em uma “cidade onde há mais homens que mulheres, não pode haver virtude”. Levar comigo essa enigmática lição atenua a ausência da fábula. Melhor do que isso, porém, é saber que essa história não acaba aqui. Seu autor foi apenas um pouco além do meio dela. Já nos mostrou o Rio quinhentista e seiscentista e nos envolveu nas tramas da República Velha. O que nos reservam os séculos XVIII e XIX?  Aguardo, paciente, o próximo volume da série, que ainda não é. Essa ansiosa espera dá sentido a tudo ao redor. Especialmente para gente, como eu, apaixonada pelos livros e pela mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.



MUSSA, A. A primeira história do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2014.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Vida de cinema


(...) fazer do leitor um cúmplice, um companheiro de viagem. Simultaneizá-lo, visto que a leitura abolirá o tempo do leitor e o transportará para o tempo do autor.
    Julio Cortázar, em O jogo da amarelinha

Este é um tempo de (auto)biografias. Algumas interessantes, outras nem tanto. Contar a história de uma (pior ainda, a própria) vida não é tão simples como parece, especialmente quando se pretende mostrar com clareza em que contextos se deram os fatos narrados, mas sem perder a leveza jamais.

Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo, de Cacá Diegues, enfrenta esse desafio de modo bastante peculiar. A obra é estruturada em centenas de minicapítulos, pequenas unidades que se apresentam agrupadas em sete grandes partes, na verdade sete períodos da vida do cineasta. Como ele explica no seu “Prefacinho”, trata-se de “uma espécie de almanaque, em que, se você quiser, pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas.”

Cá entre nós, suspeito que, ao oferecer a possibilidade de remontagem de sua obra, todo autor sorri secreta e complacentemente, certo de que seus leitores adotarão o modo tradicional de leitura, indo em linha reta, sem pular nada, da página inicial à última. Lembro-me de, no meu primeiro contato com O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, há mais de quarenta anos, ter pensado em fazer a leitura não linear sugerida pelo autor. Acabei por escolher a leitura longa, que, acredito, deu-me a visão do todo - uma das minhas obsessões. A mesma opção fiz agora com o livro de Cacá.

No gênero autobiografia estão em jogo a construção da identidade e a discussão da verdade. O eu da autobiografia enreda-se: explica-se, expõe-se à investigação do leitor, arrisca-se a ficar desacreditado. Em alguns momentos de Vida de cinema, o autor parece cair na armadilha de justificar seus atos e melhorar a própria imagem. Sente-se obrigado a dar sua própria versão de fatos que teriam merecido outras, inverídicas. Suas atitudes e posicionamentos nem sempre foram corretamente interpretados, é o que alega. Nessas horas, tendemos a distanciar-nos e a sopesar cada palavra que ele diz. São mais numerosas, porém, as passagens em que, com surpreendente sinceridade e despudor, admite erros, confessa fraquezas e assume incoerências. É quando nos persuade e alicia.

A narrativa propriamente dita de Vida de cinema se encerra na sétima parte do livro, com os acontecimentos datados de 1995. No “Posfácio provisório”, o autor enumera os principais fatos subsequentes e tece considerações sobre sua história. Uma delas é “Tentei sempre ser cúmplice de meu tempo”, com a qual sintetiza a coerência, o compromisso e a criticidade que imprimiu a sua trajetória.
 
Vida de cinema. Vida ou cinema? Se o livro fosse transformado em roteiro e a vida em filme, eu gostaria de ver o diretor em sua cadeira, lutando para finalizar a obra. Para anteceder os créditos, ele poderia escolher uma frase que se encontra lá atrás: “A vida é mais importante que o cinema. Mas a vantagem do cinema é que, no filme, há a possibilidade de cortes, elipses, alternativas para eliminar o dispensável, enquanto a vida é feita de um único e interminável plano sequência linear, um só travelling cheio de excessivos tempos mortos.”


DIEGUES, C. Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.